Spread no crédito habitação: o que é, valores atuais e como negociar



O spread é a parte do juro que fica para o banco. É também a única parte que podes negociar. Uma diferença de duas décimas, que parece nada, pode valer mais de 6.000€ ao longo do crédito.
Este artigo explica o que é o spread em linguagem simples, mostra quanto vale cada décima em euros, que valores se praticam em 2026 e como negociar. No fim, fazemos as contas para saber se o spread bonificado, aquele que baixa se contratares seguros e cartões no banco, compensa mesmo.
O que é o spread?
Quando pedes um crédito habitação a taxa variável, o juro que pagas tem duas partes:
- A Euribor: uma taxa de referência europeia, igual para todos os bancos, que muda todos os dias e que nenhum banco controla.
- O spread: a margem do banco. Fica escrito no contrato e acompanha-te até ao fim, a não ser que deixes de cumprir as condições que te deram desconto (por exemplo, cancelares o seguro de vida no banco ou deixares de receber lá o ordenado) ou que consigas renegociá-lo mais tarde.
Somadas, dão a TAN (taxa anual nominal), que é o juro que aparece na tua prestação.
Euribor + spread = TAN
Fórmula TAN
Um exemplo: Se a Euribor a 12 meses estiver em 2,2% e o banco te der um spread de 0,9%, a tua TAN é 3,1%. Se daqui a um ano a Euribor subir para 3%, a TAN passa a 3,9%. O spread continua nos 0,9%.
É por isso que o spread é o número mais importante da negociação: a Euribor não depende de ninguém, o spread depende do banco e de ti.
Quanto custa cada décima de spread
Uma décima é 0,10 pontos percentuais, por exemplo passar de 0,90% para 1,00%. Parece pouco. Em euros, num crédito com TAN de 3,5%:
| Montante do crédito | Prazo | Custo de 0,10pp por mês | Custo ao longo do crédito |
|---|---|---|---|
| 125.000€ | 30 anos | 7€ | 2.520€ |
| 150.000€ | 30 anos | 8€ | 3.024€ |
| 200.000€ | 30 anos | 11€ | 4.032€ |
| 200.000€ | 40 anos | 12€ | 5.779€ |
| 250.000€ | 40 anos | 15€ | 7.224€ |
A diferença entre um spread de 0,70% e um de 1,20%, que é a distância normal entre a melhor e a pior proposta que vais receber, custa cerca de 41€ por mês e 14.700€ no total num crédito de 150.000€ a 30 anos.
É a diferença entre aceitar a primeira proposta e pedir propostas a três bancos.
Que spreads se praticam em 2026
Os spreads mínimos que os bancos anunciam em 2026 começam por volta dos 0,65% a 0,80%, sempre com produtos associados, e há campanhas que anunciam 0,50% nos primeiros anos.
Sem contratar produtos, os spreads base publicados pelos próprios bancos nos exemplos representativos são bem mais altos, entre 1,05% e 1,90%. É essa a distância real que está em jogo quando o gestor te fala em bonificações.
Os spreads base e bonificados que cada banco publica no seu exemplo representativo, em agosto e setembro de 2026:
| Banco | Spread base / bonif. | Comissões iniciais | LTV máx. | Prazo máx. |
|---|---|---|---|---|
| Santander | 1,90% / 0,80% | Formalização 725€, avaliação 230€ | Não publica | 40 anos |
| Millennium bcp | 1,25% / 0,70% | 748,80€, isentas dos 18 aos 35 anos | Não publica | 40 anos |
| CGD | 1,350% / 0,850% | 2.101,10€ | 80% a 85% | 40 anos |
| BPI | 1,50% / 0,75% | Dossier 290€, avaliação 230€, minutas 190€ | Não publica | 40 anos |
| Novo Banco | 1,40% / 0,65% | Estudo 320€ ou 630€, formalização 200€, avaliação 310€ | 90% | 40 anos |
| Bankinter | 1,050% / 0,700% | 2.514,35€ | Não publica | 35 anos |
| ABANCA | 1,70% / 0,70% | Avaliação 275€ | Não publica | 40 anos |
| Banco CTT | 1,30% / 0,70% | 2.244,70€ | Não publica | 40 anos |
| Crédito Agrícola | 1,650% / 0,800% | Análise 197,60€, avaliação 239,20€ | 90% | 40 anos |
| Montepio | 1,50% / 0,70% | Avaliação 230€, dossier 300€, contratação 200€ | Não publica | 40 anos |
A distância entre as duas colunas de spread é a margem de negociação real em cada banco. No Santander são 1,10 pontos percentuais, no Bankinter são 0,35. Não quer dizer que o Santander seja mais barato, quer dizer que exige mais produtos para lá chegar.
Três coisas a saber sobre estes valores:
- O spread anunciado é o melhor caso: é para quem tem bom rendimento, entrada acima do mínimo e aceita todos os produtos do banco.
- O teu perfil conta: financiar 90% do valor da casa dá sempre um spread pior do que financiar 70%. Quanto menos o banco arrisca, menos margem exige.
- Há campanhas com desconto no primeiro ano: um "spread de 0,70%" pode ser 1,70% com desconto promocional nos primeiros 12 meses. O que interessa é o spread que fica para os outros 29 anos.
Uma referência útil do Banco de Portugal: em junho de 2026, a taxa média de todos os novos créditos habitação a taxa variável foi de 3,14%, com a Euribor a 12 meses nos 2,80%. Compara a TAN da tua proposta com este valor. Se estiveres muito acima, tens argumento para negociar.

Atenção a uma "armadilha" deste gráfico: a distância entre as duas linhas não é o spread médio do mercado. Em junho de 2026 são apenas 0,34 pontos, muito abaixo do spread que qualquer banco pratica. A diferença explica-se por três razões. Muitos contratos são indexados à Euribor a 3 ou 6 meses, que é mais baixa do que a de 12 meses. A taxa registada é a do primeiro ano, já com os descontos promocionais. E há um desfasamento entre o indexante usado no contrato e a Euribor do mês da escritura. O gráfico serve para ver a tendência, não para medires o teu spread.
Spread bonificado: a conta que os bancos não fazem
Quase todas as propostas trazem um spread base e uma lista de descontos, chamados bonificações. Valores típicos, que variam de banco para banco:
| Produto que o banco pede | Desconto típico no spread |
|---|---|
| Domiciliar o ordenado | 0,10pp a 0,25pp |
| Seguro de vida no banco | 0,10pp a 0,30pp |
| Seguro multirriscos no banco | 0,05pp a 0,15pp |
| Cartão de crédito com utilização mínima | 0,05pp a 0,15pp |
| PPR, fundos ou débitos diretos | 0,05pp a 0,15pp |
Somado, o desconto total é grande. Nos exemplos que os próprios bancos publicam, o spread desce de 1,25% para 0,70% num caso e de 1,90% para 0,80% noutro, ou seja, entre meio ponto e mais de um ponto percentual.
O problema é que cada produto tem um custo e o banco nunca soma esses custos ao lado do desconto.
A conta a fazer: num crédito de 150.000€ a 30 anos, cada 0,10pp de desconto vale cerca de 100€ por ano. Num de 200.000€, cerca de 134€ por ano. Agora compara com o custo do produto:
- Um seguro de vida contratado no banco custa muitas vezes 200€ a 400€ por ano a mais do que o mesmo seguro noutra seguradora. Se o desconto for de 0,10pp, estás a pagar 300€ para poupar 100€.
- Domiciliar o ordenado não custa nada. Este desconto aceita-se sempre.
- Um cartão de crédito com utilização mínima obrigatória só compensa se já usarias o cartão de qualquer forma e se pagares sempre a totalidade no fim do mês.
- Um PPR pode fazer sentido por si só. Se não farias esse investimento sem o crédito, o desconto não o justifica.
Regra prática: aceita as bonificações que não te custam nada e faz as contas às restantes, uma a uma. Um spread de 1,00% sem seguros caros sai muitas vezes mais barato do que um spread de 0,70% com tudo contratado no banco.
Para veres o custo real de cada proposta já com tudo somado, compara a TAEG e o MTIC, que estão explicados no guia completo do crédito habitação.
Como negociar o spread em 5 passos
1. Pede propostas a três bancos, no mínimo: Inclui um banco onde não tens conta. As melhores propostas vêm muitas vezes de bancos que querem ganhar clientes, não daquele onde tens conta há 20 anos.
2. Pede a FINE de cada um: A ficha de informação normalizada europeia é um documento que o banco é obrigado a dar-te, com o spread, a TAEG, o MTIC e as bonificações. É o que te permite comparar propostas iguais e é o único papel que serve como argumento nos outros bancos.
3. Mostra a melhor proposta ao banco que preferes: Não digas "o outro banco dá melhor". Leva a FINE e pergunta se conseguem igualar. É um pedido concreto e a resposta costuma ser sim ou quase.
4. Negocia antes da avaliação: Depois de pagares a avaliação e teres o processo montado, o banco sabe que dificilmente vais recomeçar tudo noutro sítio. O teu poder é maior no início.
5. Negocia o pacote, não só o spread: Comissões de dossier, comissão de avaliação, isenção de comissão de processamento da prestação. Muitos bancos não baixam mais o spread mas oferecem estes custos, que valem algumas centenas de euros.
Uma nota realista: se a tua taxa de esforço estiver perto do limite dos 45%, o banco tem pouca margem para negociar, porque já te está a considerar um risco. Nesse caso, mais entrada vale mais do que insistir no spread. Vê onde estás na calculadora de taxa de esforço.
Já tenho crédito. Posso baixar o spread?
Podes, por duas vias:
- Renegociar com o teu banco: funciona melhor se tiveres um motivo concreto: já pagaste parte do crédito e o teu LTV desceu, o teu rendimento subiu ou tens uma proposta de outro banco na mão. Se a renegociação for feita ao abrigo do regime de dificuldades de pagamento, criado pelo Decreto-Lei n.º 80-A/2022, o banco não pode cobrar comissão nem agravar a taxa. Fora desse caso, confirma no preçário se há comissão de alteração de condições.
- Transferir o crédito para outro banco: se o teu spread for de 1,5% e o mercado estiver nos 0,9%, a poupança é grande. Tens de contar com a comissão de reembolso antecipado ao banco antigo (0,5% do capital em dívida na taxa variável, 2% na fixa, desde 1 de janeiro de 2026) e com os custos do novo processo, que muitos bancos assumem para ganhar o cliente.
Faz as contas antes: num crédito com 120.000€ em dívida, baixar o spread 0,5pp poupa cerca de 30€ por mês. A comissão de reembolso são 600€, 624€ com o imposto do selo. Recuperas o custo em menos de dois anos.
E na taxa fixa e na taxa mista?
Na taxa fixa não vês spread nenhum. O banco dá-te uma taxa única, por exemplo 3,7%, que já inclui a margem dele. Não deixa de existir, apenas não está separada.
Na taxa mista, o contrato tem os dois: uma taxa fixa para o período inicial e, quando esse período acabar, Euribor mais um spread. É esse spread futuro que tens de olhar antes de assinar, porque é o que vais pagar na maior parte do contrato. Muitas propostas mistas atraentes escondem um spread alto na fase variável.
Em junho de 2026, a taxa média dos novos créditos era de 2,8% na mista, 3,1% na variável e 3,7% na fixa. A mista é a mais barata hoje, mas só olhando ao spread da segunda fase sabes se continua a ser daqui a cinco anos.
Erros a evitar
- Escolher pelo spread mais baixo do anúncio: Compara TAEG e MTIC, que incluem seguros e comissões.
- Aceitar todas as bonificações sem contas: Cada produto tem um custo anual que dura o contrato todo.
- Esquecer o desconto promocional: Confirma qual é o spread depois do primeiro ano.
- Negociar depois de ter tudo tratado: O teu poder acaba quando pagas a avaliação.
- Ir só ao teu banco: É onde a proposta costuma ser pior, porque já és cliente.
- Deixar o spread antigo em piloto automático: Quem contratou entre 2010 e 2015 tem spreads de 2% ou mais e pode estar a pagar centenas de euros por mês a mais.
Perguntas frequentes
O que é um bom spread em 2026?
Abaixo de 1% é uma boa proposta, mas só se os produtos que te pedem em troca não custarem mais do que o desconto. Entre 1% e 1,3% é o habitual com poucas bonificações. Os spreads base, sem produtos contratados, chegam aos 1,9%.
O spread pode mudar durante o contrato?
Só nos casos previstos no contrato, normalmente quando deixas de cumprir as condições das bonificações. Se cancelares o seguro de vida no banco ou deixares de domiciliar o ordenado, o spread sobe para o valor base.
O spread é igual para taxa variável e taxa mista?
Não. O banco costuma dar spreads diferentes conforme o tipo de taxa e o prazo. Pede sempre simulações das três modalidades no mesmo banco.
Posso negociar o spread depois de assinar?
Podes pedir uma renegociação a qualquer momento, mas o banco não é obrigado a aceitar. A alternativa é transferir o crédito para outro banco.
O spread influencia a TAEG?
Sim, é uma das componentes. A TAEG junta o spread, a Euribor, as comissões, os seguros obrigatórios e os impostos, por isso é o melhor número para comparar propostas.
Financiar menos dá um spread melhor?
Em regra sim. Quanto menor o rácio entre o empréstimo e o valor da casa (o LTV), menor o risco do banco e melhor o spread que consegues.
Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. As regras e os valores referem-se a 2026 e podem ser alterados. Confirma sempre as condições na FINE que o banco te entregar.




