Análise à Goparity em Portugal, plataforma de crowdlending de impacto



Depois da Scramble (sem qualquer supervisão), da Maclear (só supervisão de branqueamento de capitais, na Suíça) e da Mintos (supervisionada pelo banco central da Letónia), faltava olhar para a plataforma de crowdlending que mais portugueses usam: a Goparity. É portuguesa, tem sede em Lisboa, é autorizada pela CMVM e promete juntar rentabilidade a impacto ambiental e social. No papel, parece ser a melhor enquadrada das quatro.
E, no entanto, é também a que apresenta a pior taxa de incumprimento recente. No relatório que a própria Goparity é obrigada a entregar ao regulador, 23,25% dos empréstimos ativos em 2025 tiveram pelo menos um evento de incumprimento (mais de 90 dias de atraso) durante esse ano. Medido em valor, e não em número de empréstimos, o quadro é menos duro: cerca de 7,6% da carteira estava em recuperação em julho de 2026. Nas categorias de risco onde está a maioria dos projetos, B- e C+, a percentagem foi de 27% e 37%. Com juros médios à volta dos 5% a 6%, a matemática fica apertada.
Nesta análise explicamos o que é a Goparity, o que significa na prática ser autorizada pela CMVM ao abrigo do regulamento europeu de crowdfunding, o que essa autorização cobre e não cobre, quanto custa, como funciona a liquidez, o que revelam os números de incumprimento, como se declara no IRS e o que dizem os investidores que lá têm dinheiro.
Goparity em resumo
- Plataforma portuguesa de crowdlending de impacto, operada pela Power Parity, S.A. e autorizada pela CMVM ao abrigo do regulamento europeu de crowdfunding
- Emprestas diretamente a PME, cooperativas e projetos sociais, a partir de 10€, com juros entre 5% e 10% consoante o rating
- Os 150 empréstimos já concluídos renderam em média 5,4% ao ano
- Taxa de incumprimento de 23,25% em 2025 (10,68% de média a cinco anos), concentrada nos ratings B- e C+, que são 70% da carteira
- Sem sistema de indemnização aos investidores nem fundo de garantia: o risco de crédito é 100% teu
- Sem comissões para investir; 1% na venda no mercado secundário e 36€ por ano de inatividade
- Liquidez limitada: só podes vender ao valor nominal e só empréstimos sem atrasos
Vale a pena investir na Goparity?
A resposta curta é que a Goparity resolve bem o problema da plataforma (regulação, segregação de fundos, informação obrigatória), mas tem um problema de crédito por resolver. Os juros são moderados (entre 5% e 10% consoante o risco) e os atrasos têm subido a um ritmo que os juros não acompanham.
Segundo o Impact Report 2025 da Goparity, os 150 empréstimos já integralmente reembolsados renderam em média 5,4% ao ano, com uma duração típica de 30 meses. É um número honesto para os projetos que correram bem. O problema está nos que ainda não acabaram: a taxa de incumprimento anual passou de 1,6% em 2021 para 23,3% em 2025 e a plataforma não publica uma taxa de perda efetiva (capital dado como irrecuperável), pelo que não sabemos quanto desse dinheiro em atraso acaba mesmo perdido.
Pode fazer sentido para ti se o impacto (energia renovável, cooperativas, projetos sociais) pesa na decisão tanto como o retorno, se já tens fundo de emergência e uma carteira base de ETFs, se limitares a exposição a uma fatia pequena do património e se aceitares que uma parte relevante da carteira pode ficar meses ou anos em recuperação. Como alternativa a um depósito ou a certificados, ou como forma de "rentabilizar poupanças" com baixo risco, será uma má escolha.
Os números por trás do retorno anunciado
A Goparity é obrigada, pelo artigo 20.º do Regulamento (UE) 2020/1503, a publicar todos os anos a taxa de incumprimento dos empréstimos financiados na plataforma. O Default Rate Report mais recente, datado de 30 de abril de 2026, é o documento mais importante que vais ler antes de decidir.
| Ano | Empréstimos ativos | Com evento de incumprimento | Taxa de incumprimento |
|---|---|---|---|
| 2021 | 61 | 1 | 1,64% |
| 2022 | 125 | 7 | 5,60% |
| 2023 | 194 | 29 | 14,95% |
| 2024 | 226 | 18 | 7,96% |
| 2025 | 228 | 53 | 23,25% |
| Média a 60 meses | 10,68% |
Três notas para ler esta tabela como deve ser:
- Incumprimento não é perda. A definição usada é a do regulamento europeu: o promotor está com mais de 90 dias de atraso ou é improvável que pague sem execução de garantias. Muitos destes empréstimos acabam reestruturados, pagos com atraso ou recuperados através das garantias.
- É contado por número de empréstimos, não por montante. Um empréstimo de 20.000€ e um de 500.000€ pesam o mesmo. O tracker P2P Empire, com base nas estatísticas da própria plataforma em julho de 2026, indica 92,4% da carteira a pagar e 7,6% em recuperação, em valor. Ou seja, os incumprimentos concentram-se em empréstimos mais pequenos, o que é uma boa notícia relativa, mas não muda a experiência de quem os tem na carteira.
- Não existe taxa de perda publicada. A Goparity divulga incumprimentos, mas não divulga quanto capital foi já dado como irrecuperável, nem quanto foi recuperado nos processos judiciais. Numa plataforma com nove anos de atividade, é uma lacuna de transparência relevante.
Se emprestares a 6% ao ano e 10,7% dos empréstimos (a média histórica) entrarem em incumprimento, a tua carteira só não perde dinheiro se conseguires recuperar pelo menos metade do capital dos empréstimos que falharam. Se a taxa de incumprimento for a de 2025, 23%, precisas de recuperar 80% do capital em falta para ficares a zero. Nenhum destes cenários é impossível, sobretudo com garantias reais, mas mostra que a Goparity não é um investimento em que possas diversificar e esquecer.
Default Rate Report · CMVM · abril 2026
Quantos empréstimos falharam em cada ano?
Percentagem de empréstimos ativos com pelo menos 90 dias de atraso durante o ano, segundo o relatório que a Goparity entrega ao regulador.
E se investisses este valor?
Simplificação: juro médio de 6% aplicado a todo o capital; 10,68% (média a 60 meses) e 23,25% (2025) do capital em incumprimento. O dinheiro em recuperação não é necessariamente perdido, mas deixa de render e não tem data para voltar. É uma ordem de grandeza, não uma previsão.
Fontes: Goparity, Default Rate Report · P2P Empire · agosto 2026
O que é a Goparity?
A Goparity é a marca comercial da Power Parity, S.A., sociedade anónima portuguesa com o NIPC 514373822 e sede na Rua Filipe Folque, n.º 2, em Lisboa. Foi fundada em 2017, é certificada B Corp e define-se como uma plataforma de "finanças éticas": só financia projetos alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (energia renovável, economia azul, agroalimentar, economia social).

Os números até ao final de 2025, segundo o Impact Report: mais de 53 milhões de euros investidos em cerca de 430 campanhas em 21 países, 32 milhões de euros de capital e juros já devolvidos aos investidores, 150 empréstimos integralmente reembolsados (19,3 milhões de euros) e 78.451 utilizadores registados, dos quais 82,6% portugueses. Em agosto de 2026, a página inicial já anunciava mais de 61 milhões de euros investidos e 63.749 membros (a diferença face aos utilizadores registados deverá corresponder a contas verificadas). Cerca de 70% dos projetos financiados estão em Portugal e a energia sustentável é a maior categoria, com 20,7 milhões de euros emprestados.

Do lado empresarial, a Goparity é uma startup que se financia por capital de risco. Em 2022 abriu o capital à comunidade através da Crowdcube, a uma avaliação pré-money de 10 milhões de euros. Em maio de 2025 fechou uma ronda de 2,9 milhões de euros liderada pela 3XP Global, com a Mustard Seed Maze, a Schneider Electric Energy Access e outros investidores institucionais, novamente com uma parte (470 mil euros, de mais de 800 investidores) aberta à comunidade. Em 2024 a receita ultrapassou pela primeira vez um milhão de euros. A empresa tinha 32 pessoas no final de 2025 e é detida em 7,3% pela comunidade de investidores e em 2,5% pelos trabalhadores.
Em janeiro de 2026 a Goparity comprou a Bolsa Social, a primeira plataforma espanhola de crowdfunding de impacto autorizada pela CNMV e passou a oferecer também investimento em capital (equity) de empresas. Tem ainda uma operação no Canadá, através de uma entidade local, com uma dimensão residual (344 mil dólares canadianos investidos até ao final de 2025).
Um ponto que não conseguimos verificar: ao contrário da Mintos, a Goparity não publica no site as contas anuais auditadas da Power Parity, S.A., pelo que não sabemos se a empresa é lucrativa nem qual a sua posição de capitais próprios. Sabemos que continua a depender de rondas de capital para crescer, o que é normal numa startup, mas vale a pena ter presente.
Como funciona na prática
O modelo é o crowdlending clássico, sem a camada de titularização da Mintos nem a cessão de créditos da Scramble: emprestas diretamente ao promotor. Segundo os Termos e Condições (versão de 3 de junho de 2026):
- Cada campanha tem um montante alvo, uma taxa de juro fixa, um prazo e uma periodicidade de reembolso (mensal, trimestral, semestral ou anual). Os empréstimos são amortizados, ou seja, cada prestação inclui capital e juros, o que reduz gradualmente o capital em risco.
- O mínimo por campanha é de 10€ (o site anuncia 20€, que é o saldo mínimo para o auto-investimento funcionar). Acima de 24.999€ por campanha é preciso pedir por email.
- O contrato de empréstimo é celebrado entre ti e o promotor quando a campanha atinge 100% do objetivo e passa o período de reflexão. A Goparity não é parte no contrato.
- Investidores não sofisticados têm 96 horas para desistir sem custos depois de investir. Podes também reservar um investimento durante 24 horas enquanto transferes o dinheiro.
- Existe auto-investimento com filtros de taxa, prazo e nível de risco e a possibilidade de débito direto mensal para alimentar a carteira.

Cada campanha traz uma Ficha de Informações Fundamentais sobre o Investimento, conhecida pela sigla inglesa KIIS (Key Investment Information Sheet). É o documento normalizado que o regulamento europeu obriga a plataforma a publicar por campanha, com as contas do promotor, os riscos, as garantias e um rating de risco atribuído pela Goparity numa escala de A+ a C-. Os juros atuais das campanhas abertas andam entre 6% e 10%: no momento em que escrevemos, uma cooperativa de café no Peru pagava 9,95% a 6 meses (rating C), dois projetos agroalimentares com rating B- pagavam 6,1% e 6,3%. A Banbu, uma marca espanhola de cosmética natural, acabava de angariar 120.000€ junto de 690 investidores a 9,65% por 11 meses, com rating C- (o mais baixo da escala) e 6 meses de carência (só pagas juros nos primeiros seis meses e o capital é amortizado nos cinco seguintes).

Regulação: quem supervisiona a Goparity
Esta é a secção em que a Goparity mais se distingue da Scramble e da Maclear (e, em alguns aspetos, até da Mintos): é a única das quatro supervisionada por um regulador português.
A Power Parity, S.A. está registada na CMVM como entidade gestora de plataforma de financiamento colaborativo por empréstimo desde 11 de dezembro de 2018, ao abrigo do regime português (Lei n.º 102/2015) e é hoje autorizada como prestadora de serviços de financiamento colaborativo ao abrigo do Regulamento (UE) 2020/1503, o regime europeu que a Scramble diz não lhe ser aplicável e ao qual a Maclear, sediada na Suíça, escapa.
Podes confirmar o registo no site da CMVM e a autorização europeia no registo de prestadores de serviços de financiamento colaborativo mantido pela ESMA. As reclamações não resolvidas com a plataforma podem ser apresentadas diretamente à CMVM, que dispõe de um serviço gratuito para o efeito.

Os pagamentos e a custódia do dinheiro são feitos pela MangoPay S.A., instituição de moeda eletrónica luxemburguesa supervisionada pela CSSF e registada no Banco de Portugal com o n.º 7830. Quando abres conta na Goparity, abres também uma carteira na MangoPay em teu nome, com uma relação contratual direta. É essa segregação que garante que o dinheiro não investido não se mistura com o património da Goparity.
O que a regulação te dá, na prática
- Segregação de fundos: o saldo não investido está numa carteira de moeda eletrónica na MangoPay, fora do balanço da Power Parity. O mecanismo de continuidade prevê que, se a Goparity encerrar, a gestão da plataforma passe para um terceiro ou os saldos sejam devolvidos aos utilizadores e que os planos de pagamento dos empréstimos continuem a correr.
- Informação obrigatória: KIIS por campanha, com aviso de risco de perda total, de falta de liquidez e de que o projeto não é supervisionado pela CMVM.
- Teste de adequação: investidores não sofisticados respondem a um questionário de conhecimentos e a uma simulação da capacidade de suportar perdas. Se quiseres investir numa campanha mais de 5% do teu património líquido (ou 1.000€, o que for maior), recebes um alerta. A capacidade máxima recomendada é de 10% do património líquido.
- Relatório anual de incumprimentos entregue ao regulador, com metodologia definida por regulamento delegado. É o documento que analisámos acima.
- Política de conflitos de interesses: a Goparity não pode investir nos seus próprios projetos, nem financiar projetos de acionistas com mais de 20%, administradores ou trabalhadores. Acionistas com menos de 20%, administradores e trabalhadores podem investir, mas nas mesmas condições que tu. A plataforma tem de divulgar em que projetos o fizeram.
- Política de crédito publicada, com modelos externos (Iberinform e Wiserfunding), limites de concentração (máximo de 10% da carteira por grupo, 30% em startups) e um comité de risco semanal.
- Requisitos de resiliência operacional (DORA) e supervisão da relação com a MangoPay.
O que a regulação não te dá
1. Não há sistema de indemnização aos investidores nem fundo de garantia de depósitos. A Goparity diz-o de forma clara no rodapé do site e em cada KIIS: os investimentos não estão cobertos pela Diretiva 97/9/CE (os 20.000€ que protegem clientes de corretoras e da Mintos) nem pela Diretiva 2014/49/UE. Se a Goparity falir, a proteção vem da segregação na MangoPay; se o promotor falir, não há proteção nenhuma.
2. A CMVM supervisiona a plataforma, não os projetos. Cada KIIS avisa que o projeto não está sujeito a autorização ou supervisão da CMVM e que o regulador não aprova a informação divulgada. O rating de A+ a C- é uma avaliação interna da Goparity.
3. A Goparity não garante nada e limita a sua responsabilidade. Os Termos dizem que a plataforma não é mutuante, garante ou seguradora, que não coinveste (ao contrário da Scramble, que coinveste até 20% no Grupo A) e que não tem qualquer fundo de provisão (ao contrário da Maclear, que promete cobrir juros em atraso com uma reserva de 2%) e que a sua responsabilidade agregada perante cada utilizador está limitada a 2.500€, salvo dolo ou negligência grave. A verificação das garantias é uma "obrigação de meios", não uma certificação de que são válidas ou suficientes.
4. Concedes um mandato irrevogável à Goparity para a recuperação. Ao aceitares os Termos, autorizas a Goparity a negociar reestruturações, moratórias e planos de pagamento em teu nome e a representar-te em tribunal. Isso é eficiente (ninguém quer 1.600 investidores a processar um promotor individualmente), mas a cláusula 26.8 dá à plataforma o direito de decidir não avançar, ou desistir, de qualquer ação de recuperação que considere desproporcionada ou economicamente ineficiente. Nesse caso, ficas por tua conta.
Vantagens e desvantagens
Prós
- Autorizada e supervisionada pela CMVM ao abrigo do regulamento europeu de crowdfunding
- Fundos não investidos segregados numa instituição de moeda eletrónica supervisionada
- KIIS por campanha, com contas do promotor, garantias e rating de risco
- Relatório anual de incumprimentos com metodologia regulamentar, entregue à CMVM
- Empréstimos amortizados, com reembolsos periódicos de capital e juros
- Investimento mínimo de 10€ e zero comissões para investir e levantar (depois de investir)
- Retenção na fonte de 28% nos projetos portugueses, que são a maioria
- Período de reflexão de 96 horas e teste de adequação obrigatório
- Plataforma, app, documentação e apoio em português, com equipa em Lisboa
- Impacto mensurável e reportado por projeto, com quadro revisto com o PNUD
Contras
- Taxa de incumprimento de 23,25% em 2025 e média de 10,68% a cinco anos, por número de empréstimos
- Nas categorias B- e C+, onde estão 70% dos empréstimos, 27% e 37% falharam em 2025
- Sem sistema de indemnização aos investidores: o risco de crédito é 100% teu
- Não publica taxa de perda efetiva nem contas anuais da empresa
- Juros moderados (5% a 10%) para o nível de risco assumido
- Liquidez limitada: mercado secundário ao par, com comissão de 1% e vedado a empréstimos em atraso
- A Goparity não coinveste, não garante e pode decidir não avançar com recuperações
- Relatos frequentes de carteiras com 30% a 50% dos projetos em atraso e de comunicação insuficiente nesses casos
- Comissão de inatividade de 36€ por ano após 12 meses sem investir
- Obrigações fiscais manuais (Anexo J) nos projetos fora de Portugal
Risco de crédito: a quem estás a emprestar
A Goparity empresta a pequenas e médias empresas, cooperativas e organizações do setor social, para projetos com impacto ambiental ou social: painéis solares em telhados de empresas, eficiência energética, aquacultura, agricultura regenerativa, cooperativas de café e cacau na América Latina. São promotores que, em regra, não encontram (ou não querem) crédito bancário nas mesmas condições e que aceitam pagar 6% a 10% mais as comissões da plataforma.
A Política de Crédito é mais detalhada do que a maioria das plataformas concorrentes. Os pontos que interessam:
- O critério principal é a capacidade de pagamento a partir do cash flow operacional. As garantias (hipoteca, penhor de equipamentos, fianças pessoais, cessão de recebíveis) são tratadas como segunda via de recuperação, não como justificação para conceder o crédito.
- A plataforma exige pelo menos um ano de atividade com contas certificadas por contabilista, ausência de incidentes na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal e situação regularizada com o fisco e a Segurança Social.
- Um empréstimo é classificado como "Overdue" entre 5 e 90 dias de atraso, "In Default" acima de 90 dias e "Non-Recoverable" acima de 365 dias sem expectativa de reembolso. A cobrança começa internamente e passa para advogados externos, que trabalham em regime de contingência, com os custos deduzidos do que for recuperado.
- A taxa de juro de cada campanha é construída a partir da taxa sem risco, mais um prémio de risco (probabilidade de incumprimento vezes perda em caso de incumprimento), uma margem e um prémio de maturidade, menos um "prémio de impacto". Ou seja, a Goparity assume explicitamente que projetos com mais impacto pagam menos juros do que o risco justificaria.
É neste último ponto que está o coração do modelo. A Goparity pede-te para aceitares um retorno abaixo do que o risco pediria, em troca do impacto. Não há nada de errado nisso, desde que saibas que é essa a troca que estás a fazer.
O que os ratings valem
O relatório de incumprimentos permite comparar a taxa esperada com a realidade de 2025 por categoria de risco:
| Rating | Empréstimos em 2025 | Taxa esperada (média 60 meses) | Taxa real em 2025 |
|---|---|---|---|
| A+ / A / A- | 6 | 0% | 0% |
| B+ | 8 | 4,04% | 12,50% |
| B | 52 | 3,98% | 1,92% |
| B- | 93 | 11,59% | 26,88% |
| C+ | 67 | 16,51% | 37,31% |
| C | 2 | 10,00% | 50,00% |
Os ratings ordenam bem o risco (quanto pior a letra, mais incumprimentos), mas em 2025 subestimaram-no por um fator de dois a três nas categorias onde está a esmagadora maioria dos empréstimos. Se usares o auto-investimento, vale a pena restringi-lo a B e acima, mesmo que isso signifique investir menos e a taxas mais baixas.
Um detalhe que diz muito: os projetos com rating A são raros (seis em 228). Na prática, a Goparity é uma carteira de crédito B- e C+. É assim que deves pensar nela.
Comissões: onde é que a Goparity ganha dinheiro
Para o investidor, o Preçário (abril de 2026) é curto:
| Item | Custo |
|---|---|
| Abertura de conta e carregamento da carteira | 0€ |
| Investir em empréstimos | 0€ |
| Levantamento para conta SEPA, depois de ter investido | 0€ |
| Levantamento para conta fora da área SEPA | 2,50€ |
| Venda de um empréstimo no mercado secundário | 1% do capital em dívida (mais IVA) |
| Débito direto inferior a 50€ no auto-investimento | 0,50€ por operação |
| Inatividade (12 meses sem investir) | 36€ por ano |
| Investir em equity (Bolsa Social) | 1,5% do capital (mín. 2€, máx. 500€) + 10% dos ganhos na saída |
Um ponto merece atenção: a comissão de inatividade. 36€ por ano é menos do que os 58,80€ da Mintos, mas incide sobre saldos que muita gente deixa esquecidos depois de receber as últimas prestações. Se não vais reinvestir, levanta.
Quem paga a conta são os promotores. A Goparity cobra-lhes uma comissão de processamento entre 3% e 7% do capital angariado (5% abaixo de 50.000€, 3% acima de 500.000€, com acréscimos para projetos fora da UE) e uma comissão de gestão de 1% a 1,5% ao ano sobre o capital em dívida, cobrada com cada prestação. A isto somam-se comissões por prestações em atraso (50€), reestruturações (0,5% do capital, mínimo 100€) e reembolso antecipado total (250€). Em equity, cobra 6% do capital angariado, mais custos fixos de SPV e publicação.
O conflito de interesses é o mesmo de qualquer plataforma do setor: a Goparity é paga por quem pede dinheiro e só ganha se aprovar campanhas. A diferença face à Scramble e à Maclear é que aqui há uma política de conflitos publicada, modelos externos de risco, um regulador que a supervisiona e a proibição de a própria plataforma investir nos projetos. A diferença face à Mintos é de estrutura. Na Mintos há um intermediário: quem paga comissões à plataforma e quem ela classifica são as financeiras que originam os empréstimos ("loan originators"), não os devedores finais. Na Goparity não há intermediários: a plataforma analisa diretamente a empresa que pede o empréstimo. É mais simples e mais transparente, mas o incentivo comercial é o mesmo, porque a Goparity é paga pela empresa cujo risco classifica.
Liquidez: posso tirar o dinheiro quando quiser?
Não. Os empréstimos têm prazos entre 6 e 120 meses (a duração típica dos já concluídos foi de 30 meses) e a única forma de sair antes é o mercado secundário, que a Goparity chama de "quadro de avisos" (bulletin board), porque legalmente não pode operar uma bolsa.
As regras, nos Termos (cláusula 25), são restritivas:
- A cessão faz-se sempre ao valor nominal (par). Não podes vender com desconto para atrair um comprador, nem com prémio.
- Só podes vender empréstimos em que o promotor não esteja em atraso nem tenha estado nos últimos seis meses e que não estejam em processo de recuperação. Ou seja, exatamente os empréstimos de que mais quererias sair são os que não podes vender.
- Empréstimos reestruturados só podem ser vendidos seis meses depois, sem sinais de risco acrescido.
- Precisas de encontrar comprador entre os outros utilizadores e a Goparity pode restringir a venda "para proteger os interesses dos potenciais investidores".
- Pagas 1% do capital em dívida, mais IVA.
Os investimentos em equity não têm sequer mercado secundário na plataforma: só podes vender nos termos do acordo de investimento e da lei espanhola.
Se um promotor falhar, o teu dinheiro entra num processo de recuperação sem prazo. Nos relatos públicos de investidores portugueses, há prestações pagas 16 meses depois do previsto e projetos em atraso há mais de dois anos. A Goparity responde, e com razão, que os processos judiciais são demorados e que a maioria acaba por recuperar parte ou a totalidade do valor. Mas convém que saibas, antes de investir, que "recuperação" pode significar anos.
Equity: a nova oferta via Bolsa Social
Desde 2026 a Goparity oferece também participações em empresas, através da Bolsa Social, S.L., a subsidiária espanhola autorizada pela CNMV:
- O mínimo é de 500€ por campanha e o investimento é frequentemente feito através de um veículo (SPV) gerido pela Bolsa Social, que detém as ações da empresa financiada. Tu ficas com ações do SPV.
- A relação contratual é com a Bolsa Social, ao abrigo da lei espanhola e com foro em Madrid. As reclamações vão para a CNMV, não para a CMVM.
- Pagas 1,5% à entrada e 10% dos lucros à saída. Não há mercado secundário.
- Não há direito a reembolso: em caso de insolvência, és o último da fila.
Investir em startups não cotadas, com bilhetes de 500€ e sem liquidez, é o tipo de investimento em que a regra prática é assumir que o dinheiro pode desaparecer por inteiro. Se te interessa, trata-o como uma "aposta" separada do crowdlending, com o seu próprio limite.
Os principais riscos
- Risco de crédito: emprestas a PME e cooperativas sem acesso fácil a crédito bancário. 23% dos empréstimos falharam em 2025. Nenhum sistema de compensação cobre isto.
- Risco de recuperação: as garantias existem na maioria dos projetos recentes, mas a sua execução depende de tribunais portugueses, colombianos, peruanos ou ugandeses. A Goparity pode decidir não avançar se achar que não compensa.
- Risco de liquidez: mercado secundário ao par, com comissão, sem comprador garantido e vedado a empréstimos em atraso.
- Risco de plataforma: a Power Parity é uma startup sem contas públicas, que se financia por rondas de capital. A segregação na MangoPay e o mecanismo de continuidade mitigam o risco para o dinheiro não investido, mas uma insolvência da plataforma tornaria a gestão dos empréstimos em curso muito mais difícil.
- Risco de contraparte de pagamentos: o saldo está na MangoPay, uma instituição de moeda eletrónica, não num banco. A moeda eletrónica não está coberta pelo Fundo de Garantia de Depósitos.
- Risco cambial e de país: cerca de 30% dos projetos estão fora de Portugal, alguns em mercados emergentes. Os empréstimos são em euros, mas o promotor fatura noutra moeda.
- Risco de concentração: a política de crédito permite até 10% da carteira num único grupo e há promotores recorrentes com várias campanhas. Quem investe por auto-investimento pode acabar concentrado no mesmo promotor sem dar por isso.
- Conflito de interesses: a plataforma é paga pelos promotores cujo risco avalia.
- Risco de comunicação: os relatos de investidores apontam para atualizações escassas quando os projetos entram em atraso.
Fiscalidade para residentes em Portugal
Aqui a Goparity tem uma vantagem clara sobre as plataformas estrangeiras, mas apenas parcial:
- Projetos de promotores portugueses (cerca de 70% do total): a Goparity faz a retenção na fonte de 28% sobre os juros, como um banco. Se não quiseres englobar, não precisas de fazer nada na declaração. Se quiseres englobar, declaras no Anexo E.
- Projetos de promotores estrangeiros: não há retenção portuguesa. Os juros são rendimentos de capitais de fonte estrangeira e têm de ser declarados no Anexo J, quadro 8A, com o país da fonte de cada promotor (Espanha, Colômbia, Peru, Uganda, etc.), à taxa autónoma de 28% ou por englobamento. Se o país de origem tiver retido imposto (acontece, por exemplo, na Colômbia), indicas o valor retido para obter crédito por dupla tributação.
- Mais-valias na venda de empréstimos no mercado secundário são, na prática, nulas, porque a cessão é feita ao par. Ganhos em equity seguem o regime das mais-valias (categoria G), com fonte em Espanha.
A Goparity disponibiliza na conta um documento anual com os juros recebidos, o país de cada promotor e o imposto retido, que deves usar como base. Como a carteira pode misturar meia dúzia de países num único ano, vale a pena confirmar o preenchimento com um contabilista.
Goparity, Mintos, Maclear e Scramble: o que muda
| Item | Goparity | Mintos | Maclear | Scramble |
|---|---|---|---|---|
| Supervisão | CMVM, ao abrigo do regulamento europeu de crowdfunding | Latvijas Banka, ao abrigo da DMIF II | Autorregulação suíça (PolyReg), só branqueamento de capitais | Nenhuma |
| Sistema de indemnização ao investidor | Não existe | Sim, até 20.000€ (só se a plataforma falhar) | Não existe | Não existe |
| Segregação de fundos | Carteira de moeda eletrónica na MangoPay, em nome do investidor | Obrigatória e auditada, com relatório ao regulador | Declarada pela empresa; empréstimos no balanço da própria Maclear | Declarada pela empresa, sem verificação externa |
| Contas da plataforma | Não publicadas no site | Auditadas pela KPMG e publicadas | Não auditadas, capitais próprios negativos | Versão curta, sem auditoria |
| O que compras | Empréstimo direto a PME e cooperativas de impacto | Notes garantidas por crédito ao consumo, mais ETFs e obrigações | Créditos cedidos sobre PME da Europa de Leste | Créditos cedidos sobre pequenas marcas |
| Juro típico | 5% a 10% | 10% a 11% anunciados, 6% realizados em 2020 a 2024 | 12% a 15,6% | 12,4% a 25% |
| Taxa de incumprimento divulgada | 23,25% em 2025, 10,68% média a 5 anos (metodologia regulamentar) | 28,8% da carteira em recuperação | Não divulga | Não divulga taxas de perda |
| Liquidez | Mercado secundário ao par, com 1%, só para empréstimos sem atrasos | Mercado secundário com preços livres, 0,85% | Capital só no vencimento, mercado secundário limitado | Nula até ao vencimento |
| Retenção na fonte em Portugal | Sim, nos promotores portugueses | Não | Não | Não |
| Quem suporta o risco de crédito | O investidor | O investidor | O investidor | O investidor |
A conclusão é a mesma das outras três análises, com sinal trocado: a Goparity tem a melhor arquitetura regulatória das quatro para um investidor português, mas isso protege-te da plataforma, não dos promotores e são estes que têm falhado.
Para quem é (e para quem não é)

A Goparity pode fazer sentido para quem quer que uma parte pequena do dinheiro financie projetos concretos com impacto ambiental ou social, aceita um retorno moderado por isso, já tem a base montada (fundo de emergência, ETFs globais, eventualmente obrigações) e consegue viver com uma fatia da carteira em recuperação durante anos sem que isso afete os seus objetivos. Também é a plataforma de crowdlending mais simples de declarar no IRS para quem se limitar a projetos portugueses.
Não é adequada para o fundo de emergência, para objetivos com data marcada, para quem procura capital garantido ou para quem pensa nela como um depósito a prazo com juros mais altos. E, com os números de 2025, também não é o sítio certo para quem quer "diversificar e esquecer": exige acompanhamento, seleção de ratings e limites por promotor.
O que dizem os investidores
Lemos as opiniões públicas de investidores no Trustpilot, onde a Goparity tem 2,8 em 5 com 151 avaliações (agosto de 2026). A distribuição é bipolar: 54% de cinco estrelas, 33% de uma estrela e quase nada no meio.
As avaliações positivas elogiam a missão, a simplicidade da app, o apoio ao cliente e a transparência inicial dos projetos. As negativas, que dominam as 40 opiniões dos últimos 12 meses, contam quase sempre a mesma história: carteiras com 30% a 50% dos projetos em atraso, alguns há mais de dois anos, montantes em incumprimento superiores aos juros recebidos e uma comunicação que se tornou escassa a partir de meados de 2025. Um investidor com mais de quatro anos de conta descreve que os empréstimos eram pagos a horas até 2025 e que três dos quatro que ainda tem estão em incumprimento. Outro refere 16 investimentos em atraso. Há também queixas sobre bloqueios de conta e demoras na validação de identidade.
A Goparity respondia às avaliações negativas até setembro de 2025, com a mensagem de que a recuperação tem sido bem sucedida "na sua grande maioria" e que a percentagem de atrasos reportada não corresponde à média da plataforma. Desde então, o próprio Trustpilot assinala que a empresa deixou de responder.
Como sempre, avaliações públicas atraem sobretudo quem teve problemas e a média da plataforma (7,6% da carteira em recuperação, em valor) é bastante melhor do que estes relatos.
Veredicto
A Goparity é a prova de que regulação e qualidade de crédito são coisas diferentes. Enquanto plataforma, faz quase tudo bem: autorização da CMVM, fundos segregados, documentação por campanha, teste de adequação, relatório de incumprimentos com metodologia regulamentar, política de crédito publicada, retenção na fonte nos projetos portugueses e uma equipa em Lisboa que responde em português. Face à Scramble e à Maclear, a diferença é abissal. Face à Mintos, troca o sistema de indemnização de 20.000€ pela conveniência de um regulador nacional.
Enquanto investimento, os números recentes podem ser considerados maus. Três notas para fechar:
- Uma taxa de incumprimento de 23% num ano, com juros de 5% a 10%, só deixa a carteira em terreno positivo se a recuperação for muito eficaz. A Goparity diz que tem sido. Não publica os dados que o provariam.
- O rating interno ordena bem o risco, mas em 2025 falhou por um fator de dois a três nas categorias B- e C+, que são a plataforma. Quem investir deve ser mais conservador do que o auto-investimento por defeito.
- A liquidez é, com a Scramble, a pior das quatro plataformas analisadas para quem tem problemas: os empréstimos em atraso, precisamente os que quererias vender, não podem ser vendidos.
Se decidires investir, trata a Goparity como a componente de impacto da carteira e não como a componente de rendimento: montantes que possas ver bloqueados durante anos, ratings B ou acima, limites por promotor e a expectativa realista de que o retorno líquido fique abaixo do juro nominal. E lê o Default Rate Report do próximo ano antes de reforçar.
Perguntas frequentes
A Goparity é regulada pela CMVM?
Sim. A Power Parity, S.A., que opera a Goparity, é autorizada e supervisionada pela CMVM como prestadora de serviços de financiamento colaborativo ao abrigo do Regulamento (UE) 2020/1503. A CMVM supervisiona a plataforma, não os projetos que ela financia.
O meu dinheiro está protegido se a Goparity falir?
O saldo não investido está numa carteira de moeda eletrónica na MangoPay, em teu nome, separado do património da Goparity e existe um mecanismo de continuidade para os empréstimos em curso. Mas não há sistema de indemnização aos investidores nem fundo de garantia de depósitos. Se um promotor não pagar, o prejuízo é teu.
Quanto rende a Goparity?
Os 150 empréstimos já concluídos renderam em média 5,4% ao ano, segundo a própria Goparity. As campanhas abertas pagam entre 6% e 10%. O retorno líquido real depende de quanto capital fica em incumprimento e de quanto é recuperado e a plataforma não publica esse número.
Qual é a taxa de incumprimento da Goparity?
23,25% em 2025 e 10,68% em média nos últimos cinco anos, por número de empréstimos com mais de 90 dias de atraso, segundo o relatório entregue à CMVM. Em valor, 7,6% da carteira estava em recuperação em julho de 2026.
Posso vender os meus investimentos antes do fim?
Só no mercado secundário da plataforma, ao valor nominal, com comissão de 1% mais IVA e apenas se o promotor não estiver nem tiver estado em atraso nos últimos seis meses. Precisas de encontrar comprador entre os outros utilizadores.
Como declaro a Goparity no IRS?
Nos projetos de promotores portugueses, a Goparity retém 28% na fonte e não precisas de fazer nada, salvo se optares pelo englobamento. Nos projetos estrangeiros, declaras os juros no Anexo J, quadro 8A, com o país de cada promotor. A plataforma disponibiliza um documento anual com estes dados.
Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Investe com responsabilidade.




