Análise à Maclear em Portugal, plataforma de crowdlending suíça



Depois da análise à Scramble, chegou a vez da Maclear, outra plataforma de empréstimos a empresas (crowdlending) que tem sido promovida por vários finfluencers portugueses. E os números mostram que a mensagem está a chegar: segundo a própria plataforma, Portugal foi o terceiro país em número de investidores em 2025 (21% do total) e, em julho de 2026, passou a ser o primeiro país em novos investidores, com quase um quinto de todas as novas contas:

O argumento central de todos os vídeos é sempre o mesmo: "é uma plataforma suíça, regulada, auditada e com garantias".
Para perceber o que isto significa na prática, fomos ler os termos, as políticas internas, o registo da PolyReg, o relatório e contas de 2024 e as análises independentes já publicadas noutros países.
Neste artigo explicamos o que é a Maclear, como funciona, o que significa realmente a "regulação suíça" (spoiler: muito menos do que parece), quais são os custos, o que dizem as contas da empresa, quais os riscos reais e fazemos um fact-check às principais afirmações dos vídeos.
Aviso: analisámos algumas empresas com projetos abertos na Maclear. Encontrámos sinais que recomendam cautela: os sites foram criados em 2026, semanas antes das angariações, todos no mesmo fornecedor de alojamento. Não conseguimos confirmar de forma independente a atividade descrita em nenhuma delas. Antes de investires, verifica tu próprio a empresa no registo comercial. Se tiveres informação relevante, contacta-nos com mais detalhes. Vamos atualizando este artigo.
O que é a Maclear?
A Maclear é uma plataforma de crowdlending operada pela Maclear AG, uma sociedade anónima registada na Suíça (UID CHE-115.674.165, sede em Wallisellen, no cantão de Zurique). A sociedade existe desde 2010, mas foi adquirida em 2020 pelos atuais acionistas e a plataforma de empréstimos começou a operar em 2023. Segundo análises independentes, os dois acionistas (50% cada) não têm ligação à Suíça e a operação é gerida a partir dos países bálticos.

O conceito: investidores de retalho financiam empréstimos a pequenas e médias empresas, sobretudo da Europa de Leste, com taxas anunciadas entre cerca de 12% e 15,6% ao ano, juros mensais e reembolso do capital no final do prazo (tipicamente entre 6 e 18 meses).
Segundo os dados divulgados pela própria Maclear (não auditados por terceiros), a plataforma já intermediou mais de 133 milhões de euros, tem mais de 47.000 investidores registados e financiou quase 2.000 projetos. O crescimento é recente e muito acelerado: em 2024 foram financiados 93 projetos, em 2025 foram 886.
Como funciona na prática
- Registas-te, fazes a verificação de identidade (KYC através da Sumsub) e depositas por transferência bancária.
- Escolhes projetos individuais no mercado primário (mínimo de 50€ por projeto). Cada projeto tem uma taxa, um prazo, um rating interno (de AAA a D), rácios financeiros e uma descrição do colateral.
- Recebes juros mensais e o capital no final do prazo. Existe um mercado secundário onde podes tentar vender a tua posição a outro investidor.
- Em caso de atraso do mutuário, um "fundo de provisão" cobre os juros a partir do 3.º dia. Aos 30 dias inicia-se cobrança amigável e aos 60 dias a Maclear avança para execução das garantias.

Tal como na Scramble, não tens contrato direto com a empresa financiada. A Maclear celebra o contrato de empréstimo com o mutuário e depois cede-te uma parte do crédito através de um Contrato de Compra e Cessão de Créditos. Os utilizadores são anónimos entre si, e a Maclear atua como agente de cobrança e agente de garantias em nome de todos os investidores.
Nos Termos e Condições, a Maclear afirma expressamente que não concede empréstimos e não é um banco. Curiosamente, como veremos na secção das contas, o balanço diz outra coisa.

Regulação e segurança: o que significa "regulada na Suíça"?
Esta é a secção mais importante do artigo, porque é aqui que a comunicação em torno da Maclear é mais ambígua.
A Maclear AG é membro da PolyReg Services GmbH, uma organização de autorregulação (SRO/OAR) reconhecida pela FINMA (o supervisor financeiro suíço) ao abrigo do artigo 24 da lei suíça de combate ao branqueamento de capitais. A adesão data de maio de 2022 e pode ser confirmada no registo público da PolyReg. Isto é verdade e é verificável.
O problema é o que se conclui a partir daqui. Uma SRO como a PolyReg supervisiona apenas o cumprimento das regras de branqueamento de capitais: identificação de clientes (KYC), origem dos fundos, comunicações de operações suspeitas, documentação. Não supervisiona a solidez financeira da plataforma, a qualidade dos créditos, a veracidade da informação dos projetos, nem a proteção dos investidores. Não é supervisão prudencial nem supervisão de conduta. Na prática, é o mesmo tipo de enquadramento a que estão sujeitas casas de câmbio, fiduciárias e prestadores de serviços de pagamento na Suíça.
A própria Maclear reconhece isto no rodapé do site e na sua página de FAQ sobre regulação: a Maclear AG não está diretamente licenciada nem supervisionada pela FINMA, não é um banco, os fundos não estão cobertos pela garantia de depósitos suíça (esisuisse) e a empresa não está licenciada nem supervisionada por nenhum regulador nacional da União Europeia. Ou seja, não é supervisionada pela CMVM, nem pelo Banco de Portugal, nem por nenhuma autoridade europeia.

A contradição entre a página inicial e o rodapé
Este é, para nós, o ponto mais problemático da comunicação da Maclear. O título da página inicial diz "Plataforma de investimento P2P regulada na Suíça":
.png)
O rodapé da mesma página diz que "a Maclear AG não está diretamente licenciada pela FINMA". Num sentido estritamente literal, a primeira frase é defensável: a empresa está sujeita à lei suíça de branqueamento de capitais através da PolyReg. Mas quem lê "plataforma de investimento regulada na Suíça" entende que existe um regulador financeiro suíço a supervisionar a plataforma e os seus investimentos, e é exatamente isso que não existe. A informação correta está lá, mas no rodapé, em letra pequena.
A própria FINMA já alertou publicamente para este tipo de prática: a filiação numa organização de autorregulação não é uma licença nem supervisão da FINMA, e não deve ser usada como argumento de marketing que sugira o contrário.
Isto significa, para ti:
- Não existe fundo de garantia de depósitos.
- Não existe sistema de indemnização aos investidores, como o que protege clientes de corretoras reguladas na UE até 20.000€.
- Não existe um regulador prudencial a verificar capital, liquidez ou a qualidade da carteira de crédito.
- Em caso de litígio, a lei aplicável é a suíça e o foro são os tribunais de Wallisellen.
Desde 2023, qualquer plataforma que intermedeie empréstimos a empresas para investidores de retalho na União Europeia precisa de uma licença de Prestador Europeu de Serviços de Crowdfunding (ECSP), ao abrigo do Regulamento (UE) 2020/1503, com requisitos de capital, de informação ao investidor e testes de adequação. Uma plataforma sediada na Suíça fica fora deste regime.
Em maio de 2026, o regulador espanhol (CNMV) incluiu a Maclear AG e o site maclear.ch na sua lista pública de advertências, por prestar serviços de financiamento participativo sem autorização. À data desta análise, a CMVM não emitiu qualquer aviso sobre a plataforma.
A plataforma é "exclusivamente" para residentes na Suíça
Ao ler os Termos e Condições e a Política Interna de Clientes, encontrámos algo que merece destaque. A Maclear escreve que a plataforma "destina-se exclusivamente a utilizadores com residência ou sede social na Suíça" e que os utilizadores fora da Suíça só são aceites em regime de "reverse solicitation", ou seja, têm de declarar que descobriram a plataforma por conta própria e que não foram alvo de marketing por parte da Maclear. A mesma política diz que o programa de referência "funciona apenas dentro das fronteiras suíças" e que nenhum utilizador fora da Suíça se pode registar com código de referral.

Ao mesmo tempo, o site tem versão em português, a plataforma comunica ativamente para o mercado português e existem bónus de boas-vindas e programas de referência amplamente divulgados em conteúdos dirigidos a portugueses.
A leitura mais benévola é que estas cláusulas são um mecanismo formal para a Maclear se manter dentro do enquadramento suíço. A leitura menos benévola é que existe uma diferença relevante entre o que os documentos legais dizem e o que a plataforma faz na prática. Em qualquer dos casos, ao aceitares os termos estás a declarar que não foste alvo de marketing, o que convém saber.
Vantagens e desvantagens
Prós
- Investimento mínimo baixo (50€ por projeto) e sem comissões diretas para o investidor
- Escolha projeto a projeto, com informação financeira detalhada, rating e descrição do colateral
- Juros mensais e mercado secundário (com limitações)
- Fundo de provisão para juros em atraso e Maclear como agente de cobrança coletivo
- Adesão a uma SRO suíça verificável publicamente e auditoria de conformidade AML
- Estatísticas mensais de volume publicadas e relatórios fiscais descarregáveis
- Site e apoio em português
Contras
- Supervisão limitada a branqueamento de capitais: sem regulador prudencial, sem fundo de compensação, fora do regime ECSP europeu
- Empresa operadora com capitais próprios negativos e contas não auditadas, publicadas com grande atraso
- Empréstimos registados no balanço da própria Maclear, que assume risco de crédito por conta própria
- Divergências reportadas por terceiros entre a informação dos projetos e os registos oficiais das empresas
- Ratings atribuídos internamente, sem validação externa
- Concentração crescente em financeiras (loan originators) da Bulgária
- Contradição entre os termos (plataforma "exclusivamente" para residentes suíços) e a comunicação ativa para Portugal
- Promoção cruzada de uma plataforma cripto (8lends) com retornos de 25% e entidade nas Caraíbas
- Foro judicial na Suíça e obrigações fiscais manuais (anexo J)
As "garantias": colateral, fundo de provisão e agente de cobrança
A Maclear apresenta um sistema de proteção em várias camadas. Vale a pena separar o que cada uma é e não é:
O Acordo de Procedimento de Cobrança afirma que "a Maclear garantirá ao investidor o cumprimento rigoroso de todos os calendários de pagamento de juros", e dois parágrafos depois diz que o fundo de reserva "não pode garantir o pagamento integral dos juros". Contratos que garantem e desgarantem a mesma coisa em páginas consecutivas não são um bom sinal de rigor jurídico.
Como são selecionados os projetos?
A seleção e a atribuição de rating são feitas exclusivamente por modelos internos da Maclear. O sistema de pontuação usa uma escala de AAA a D "consistente com a S&P, Moody's e Fitch", combinando rácios financeiros (dívida/capital próprio, cobertura de juros), fatores qualitativos e liquidez. Parece sofisticado, mas não existe nenhuma entidade independente (auditor, agência de rating, trustee) a validar a qualidade dos créditos nem a informação publicada sobre cada projeto. Um rating "A" atribuído pela própria plataforma que ganha com a venda do crédito não é comparável a um rating "A" de uma agência externa.
Em abono da verdade, a informação por projeto é extensa. Tomámos como exemplo um projeto aberto em agosto de 2026, a WOW Innovation, uma empresa alemã de mineração de Bitcoin que pede 3,2 milhões de euros a 16% por 14 meses, em tranches. A página tem dezenas de páginas de descrição, contas históricas, projeções até 2028, análise de mercado e uma explicação detalhada do colateral, incluindo os rácios usados na classificação de risco. É mais do que a maioria das plataformas oferece.
Mas é também um bom exemplo de como um rating pode enganar quem não lê o documento todo: o projeto tem rating "BBB" (que a escala da Maclear descreve como "grau de investimento"), com uma dívida sobre capital próprio de 5,5, um LTV de 126% e uma equipa de três pessoas. O próprio texto admite que "uma vez aplicados os cortes, o colateral não cobre totalmente o empréstimo", que o colateral são máquinas de mineração de rápida depreciação instaladas em regiões emergentes, e que a projeção assume que o preço do Bitcoin duplica em 2028. Nenhuma agência de rating classificaria isto como grau de investimento.
E é aqui que entram os factos mais relevantes que encontrámos. Analistas independentes de P2P lending, nomeadamente a alemã re:think P2P e a P2P Empire, cruzaram a informação de vários projetos da Maclear com os registos comerciais oficiais (estónio e italiano) e reportam um padrão de divergências:
- Uma empresa estónia apresentada com 12 trabalhadores e receitas previstas de 1,65 milhões de euros teria, segundo as contas públicas, 1 trabalhador e receitas de 33 mil euros, sem ativos fixos no balanço apesar de o empréstimo estar "garantido por máquinas".
- Uma empresa de logística que angariou quase 300 mil euros para comprar um camião e um reboque teria, no ano seguinte, ativos fixos de apenas 72 mil euros, sugerindo que o equipamento não foi comprado.
- No único incumprimento reconhecido pela Maclear (a italiana Vibroedil, que entrou em insolvência em julho de 2025), os números financeiros publicados na plataforma irmã 8lends (receitas de 15,9 milhões e lucro) divergiam dos registos oficiais italianos (6,4 milhões de receitas e prejuízo de 1,9 milhões). A Maclear diz que os investidores receberam 100% do capital através de acordo privado.
Não replicámos todas estas verificações empresa a empresa, mas os registos citados são públicos e a Maclear, até à data, não os contestou de forma documentada. Se estes dados estão corretos, a conclusão é grave: o colateral e as projeções que sustentam os ratings internos podem não corresponder à realidade. Recomendamos vivamente que, antes de investires num projeto, procures tu próprio as contas da empresa no registo comercial do país em causa.
Concentração em "loan originators"
Nos primeiros anos, a Maclear financiava sobretudo pequenas empresas industriais e de serviços. Em 2025, a categoria "Loan Originator" (financeiras que, por sua vez, emprestam a terceiros) já representava 22% do volume. Em julho de 2026 representava 42%, com um único projeto (uma financeira búlgara) a absorver 36% de tudo o que foi investido no mês, e a Bulgária a concentrar quase metade do volume financiado.
Ou seja, cada vez mais estás a emprestar dinheiro a empresas cujo negócio é emprestar dinheiro a outros, num modelo semelhante ao das plataformas bálticas de loan originators, com o risco em cascata que isso implica.
Custos e comissões
Para o investidor, a Maclear anuncia custos diretos nulos:
O modelo de receitas assenta numa comissão de sucesso cobrada ao mutuário quando o projeto é financiado, mais os 2% retidos para o fundo de provisão. Ou seja, quem paga são as empresas, com o custo embutido nas taxas que suportam.
A plataforma é muito generosa em bónus (boas-vindas, cashback de 3% nos primeiros 90 dias, 30€ por cada 500€ investidos, programa de fidelidade até 3% adicionais, sorteios). Nas contas de 2024, os bónus a investidores e referências custaram 298 mil CHF, mais 235 mil CHF de publicidade, num ano em que a receita total foi de 758 mil CHF. Isto é um custo de aquisição de clientes muito elevado para uma empresa deficitária, e explica em parte a intensidade da promoção que se vê em Portugal.
O que revelam as contas da Maclear AG
Analisámos o relatório e contas de 2024, publicado no site da Maclear apenas em junho de 2026, ou seja, cerca de ano e meio depois do fecho do exercício. À data desta análise não existem contas de 2025: o "relatório anual 2025" que a plataforma divulga é um resumo de métricas comerciais (volumes, número de investidores, países), não um relatório financeiro. Para um investidor de retalho, os pontos que merecem atenção são estes:
- Contas não auditadas: o documento é uma versão preparada pela própria empresa. Segundo a re:think P2P, a carta do CFO que o acompanha diz que está "na fase final de auditoria", tal como já tinha sido anunciada uma auditoria às contas de 2023 que nunca foi publicada. A única auditoria da Grant Thornton confirmada pela Maclear é uma auditoria de conformidade AML/KYC (novembro de 2024), exigida pela PolyReg. Não é uma auditoria às demonstrações financeiras.
- Capitais próprios negativos: prejuízo de 123 mil CHF em 2024 (118 mil em 2023) e capital próprio de -87 mil CHF no final do ano, apesar de um aumento de capital de 55 mil CHF. É uma empresa tecnicamente sobre-endividada segundo os critérios do direito das sociedades suíço.
- Os empréstimos estão no balanço da Maclear: no final de 2024, a empresa tinha 9,3 milhões de CHF de "empréstimos e juros" no ativo e 9,2 milhões de "passivos remunerados" perante investidores. As próprias notas dizem que a empresa "opera um negócio de intermediação de crédito por conta própria, suportando o risco de potenciais perdas por crédito malparado", e acrescentam que "o risco de incumprimento dos devedores individuais não está suficientemente acautelado" e que existe "um risco considerável de que parte dos ativos da empresa não possa ser reembolsada". Isto contradiz a mensagem de marketing de que a Maclear é uma mera intermediária e sugere que, em caso de insolvência da plataforma, a separação entre os créditos dos investidores e a massa insolvente pode não ser tão líquida como se apresenta.
- Paga mais juros do que recebe: em 2024 a Maclear recebeu 464 mil CHF de juros de mutuários e pagou 530 mil CHF de juros a investidores, mais 298 mil CHF de bónus. Numa plataforma de crédito saudável, os juros recebidos superam os pagos. Aqui a diferença foi coberta com comissões cobradas na originação de novos empréstimos. Pode haver efeitos de calendário (juros pagos mensalmente, capital no fim), mas é um perfil que depende de crescimento contínuo, e por isso merece vigilância.
- Provisão para perdas de apenas 2% da carteira, numa carteira de crédito a PME da Europa de Leste com taxas de 12% a 16%.
- Empresa muito pequena: menos de 10 trabalhadores, custos com pessoal de 29 mil CHF no ano inteiro (o que indica que a equipa operacional está fora da entidade suíça), a gerir uma carteira que hoje ultrapassa largamente os 100 milhões de euros intermediados.
Nada disto prova má conduta. Mas o quadro é o de uma micro-empresa deficitária, com capitais próprios negativos, contas não auditadas e publicadas com muito atraso, a crescer a um ritmo de 400% a 800% ao ano e a intermediar dezenas de milhões de euros de poupanças de retalho sem supervisão prudencial. O risco de plataforma é real e deve pesar tanto como o risco de crédito das empresas financiadas.
E a 8lends?
Quem entra no site da Maclear repara imediatamente num botão no cabeçalho: "Ganhe 25%". Leva para a 8lends, uma plataforma de crowdlending em criptomoeda (USDC, na blockchain Base) lançada em março de 2025 pelos mesmos fundadores da Maclear, com retornos anunciados de 19% a 25% ao ano e um token próprio (8LNDS) oferecido como bónus.
Segundo a própria FAQ da Maclear, a entidade que opera a 8lends é a Alpha Systems LLC, registada em São Vicente e Granadinas como prestador de serviços de ativos virtuais. A Maclear AG atua apenas como "agente de garantias". A Maclear é transparente ao escrever que este registo é "um enquadramento mais ligeiro" e que não confere proteções equivalentes às da UE.
Duas notas:
- Retornos de 25% em crédito a PME são um sinal claro de risco muito elevado, e a mesma equipa que faz a due diligence na Maclear faz a due diligence na 8lends: as divergências reportadas nos projetos aplicam-se às duas.
- Uma investigação publicada pela P2P Empire e replicada pela re:think P2P em julho de 2026 concluiu que um site de "reviews" chamado CrowdIndex, que classifica a Maclear como a melhor plataforma P2P da Europa, partilha a mesma propriedade de Google Analytics com o maclear.ch e usa parâmetros de campanha internos da Maclear e da 8lends, apontando para uma operação de marketing próprio disfarçada de análise independente.
Se estás a pesquisar sobre a Maclear, convém saber que nem todas as "análises" que vais encontrar são independentes.
Os principais riscos
- Risco de crédito: emprestas a PME da Europa de Leste, cada vez mais a financeiras que por sua vez emprestam a terceiros. Taxas de 12% a 16% são, por definição, um prémio de risco elevado.
- Risco de informação: os dados dos projetos são fornecidos e validados apenas pela Maclear, e terceiros reportam divergências face aos registos oficiais em vários casos.
- Risco de plataforma: empresa com capitais próprios negativos, contas não auditadas e empréstimos no próprio balanço. Se a Maclear encerrar, a execução das garantias e a cobrança de créditos búlgaros, estónios ou checos por um investidor português seria difícil e cara.
- Risco regulatório: supervisão limitada a branqueamento de capitais, sem regulador prudencial, sem fundo de compensação, fora do regime europeu de crowdfunding.
- Risco de liquidez: o capital só regressa no final do prazo. O mercado secundário depende de haver comprador e não está disponível para projetos em atraso.
- Fundo de provisão limitado: 2% dos projetos, cobre apenas juros, não é garantia contratual.
- Concentração: em julho de 2026, um único mutuário absorveu 36% do volume mensal e a Bulgária quase 50%.
- Histórico curto: a plataforma opera desde 2023 e nunca atravessou uma recessão. O crescimento de 800% num ano não foi ainda testado por um ciclo de incumprimentos.
- Transparência limitada: não são publicadas taxas de atraso, taxas de perda por lote ou por ano, nem o desempenho da carteira. As métricas mensais divulgadas são de volume, não de qualidade.
Fact-check aos vídeos de finfluencers
Analisámos quatro vídeos de finfluencers portugueses sobre a Maclear. Eis as principais afirmações e o que apurámos:
Em resumo: os vídeos descrevem bem a mecânica da plataforma e a maioria inclui avisos de risco, mas repetem a narrativa de "regulação suíça" sem explicar que se trata apenas de supervisão de branqueamento de capitais, e nenhum refere as contas da empresa nem as análises independentes já publicadas.
Fiscalidade para residentes em Portugal
A Maclear não faz retenção na fonte em Portugal. Os juros recebidos são rendimentos de capitais (categoria E) de fonte estrangeira e cabe-te a ti declará-los:
- Anexo J da declaração Modelo 3, quadro 8A
- Código de rendimento E21 (juros sem retenção em Portugal)
- País da fonte: Suíça
- Tributação autónoma de 28%, ou englobamento se for mais vantajoso no teu caso
A plataforma disponibiliza relatórios fiscais descarregáveis, o que ajuda, mas a responsabilidade de declarar é tua.
Maclear vs corretora regulada: a diferença estrutural
Vê a nossa lista das melhores corretoras em Portugal para perceber o que é uma plataforma efetivamente supervisionada.
Para quem é (e para quem não é)
A Maclear pode fazer sentido apenas para investidores experientes que já têm uma carteira diversificada consolidada, que compreendem crédito privado de alto risco, que estão dispostos a verificar por si próprios as contas das empresas financiadas e que alocam a este tipo de plataformas uma fatia pequena do património, dinheiro cuja perda total não afetaria os seus objetivos.
Não é adequada para quem está a começar a investir, para objetivos de curto prazo, para o fundo de emergência, nem para quem procura "rendimento passivo seguro", uma expressão que não se aplica a este produto.
Veredicto
A Maclear não aparenta ser uma fraude: é uma sociedade real, com registo público, adesão verificável a uma SRO suíça, dezenas de milhões de euros intermediados e reembolsos efetuados. Mas a narrativa de "plataforma regulada e auditada na Suíça" com que é promovida em Portugal é muito mais forte do que a realidade que os documentos revelam.
Os factos que resumem esta análise: primeiro, a "regulação" é supervisão de branqueamento de capitais por uma organização de autorregulação, não supervisão financeira, e não existe qualquer mecanismo de compensação. Segundo, a empresa tem capitais próprios negativos, contas não auditadas e assume risco de crédito no próprio balanço. Terceiro, análises independentes reportam divergências sérias entre a informação de vários projetos e os registos oficiais das empresas. Quarto, os retornos de 12% a 16% são o preço do risco de emprestar a PME da Europa de Leste, e cada vez mais a financeiras, a quem a banca não empresta nestas condições.
As duas principais análises independentes internacionais chegam a conclusões mais duras do que a nossa: a P2P Empire retirou o rating à plataforma e classifica-a como "não investível para investidores de retalho", e a re:think P2P atribui-lhe 1,8 em 10 (25.ª em 29 plataformas analisadas).
Se decidires testar, fá-lo com montantes que possas perder na totalidade, verifica tu próprio as contas das empresas nos registos comerciais antes de investir, e não assumas que a palavra "Suíça" substitui a supervisão que não existe.
Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Investe com responsabilidade.




