Análise à Mintos em Portugal, plataforma regulada de investimento em empréstimos



Depois da nossa análise à Scramble, vários leitores perguntaram-nos pela Mintos. A comparação é natural, porque ambas prometem juros elevados a partir de empréstimos, mas as duas plataformas jogam em campeonatos diferentes num aspeto decisivo: a Mintos é uma sociedade de investimento licenciada e supervisionada por um banco central europeu, e a Scramble não é supervisionada por ninguém.
Isso muda muita coisa, mas não muda tudo. Ser regulada resolve uma parte do problema (o risco de a plataforma falhar contigo, a segregação do teu dinheiro, a informação que és obrigado a receber). Não resolve a outra parte: o risco de crédito dos empréstimos continua inteiramente do teu lado, e nenhum regulador te devolve o capital se o devedor (mutuário, na linguagem dos contratos) não pagar.
Nesta análise explicamos o que é a Mintos, o que significa na prática ser supervisionada pelo Latvijas Banka, o que o sistema de indemnização aos investidores cobre e não cobre, como funcionam as Notes, quanto custa a plataforma, o que revela o relatório anual de 2025 auditado pela KPMG e quais os riscos que continuam a existir.
Vale a pena investir na Mintos?
A resposta curta: rende, mas cobra em liquidez e paciência.
Os dados independentes do P2P Dash, que agrega as carteiras reais de 991 investidores na Mintos, mostram uma mediana de 10,9% líquidos por ano - metade dos investidores fica entre 9,0% e 12,6%. O problema não está no retorno médio: está no que acontece quando corre mal. Neste momento, 28,8% da carteira de empréstimos está em recuperação - quase 198 milhões de euros que podem demorar anos a voltar, sem render juros. E nos anos maus nem os juros seguraram: nos dados da própria Mintos, 2020 fechou em 4,3% líquidos e 2022 foi mesmo negativo (-1,2%).
Faz sentido para ti se já tens a base montada (fundo de emergência e ETFs globais), se limitares a exposição a 5-10% do património e se investires apenas dinheiro que podes esquecer durante anos. Não faz sentido como alternativa a depósitos ou certificados, para objetivos com data marcada, nem como primeiro investimento.
Os números que interessam
O marketing fala em juros até 21%. Antes de decidir, olha para a diferença entre o juro anunciado e o que os investidores realmente recebem - e para o dinheiro que fica pelo caminho.
- Juro médio anunciado: 10,48% nos empréstimos disponíveis (estatísticas da Mintos, agosto de 2026).
- Retorno líquido real: mediana de 10,9% ao ano, com metade das carteiras entre 9,0% e 12,6% (P2P Dash, dados agregados de 991 investidores).
- Anos maus: 4,3% líquidos em 2020 e -1,2% em 2022, quando as perdas com originadores comeram (e em 2022 ultrapassaram) os juros.
- Carteira atual: 71,2% dos empréstimos a pagar; 28,8% (197,7 milhões de euros) em recuperação e 12,4 milhões de euros de perdas confirmadas de investidores.
- Longo prazo: um investidor com 150.000€ ao longo de 9 anos reporta cerca de 9% líquidos ao ano; outro, com 32.000€ em 6 anos, reporta 11,5%.
Dados reais · agosto 2026
Quanto ganham realmente os investidores?
Retorno líquido anual de 991 carteiras reais na Mintos, agregado pelo tracker independente P2P Dash.
A faixa verde marca onde fica metade dos investidores (9,0% a 12,6% ao ano). Os pontos vermelhos são os anos maus da plataforma, nos dados da própria Mintos: 4,3% em 2020 e -1,2% em 2022. Nota: retornos que contam o dinheiro em recuperação ao valor estimado.
E se investisses este valor?
Simplificação com os números atuais da plataforma: juro médio de 10,48% aplicado aos 71,2% da carteira que está a pagar; 28,8% em recuperação; comissão de inatividade de 4,90€/mês. O teu resultado depende dos originadores que escolheres - isto é uma ordem de grandeza, não uma previsão.
Fontes: Mintos · P2P Dash · P2P Empire · agosto 2026
Um exemplo para tornar isto concreto: com 10.000€ ao juro médio atual e a carteira a pagar como hoje, recebes cerca de 750€ de juros por ano - mas podes ter perto de 2.900€ presos em recuperação, sem render nada e sem data para voltar.
Atenção à letra pequena destes retornos. Quase todos os números acima - o NAR que a Mintos te mostra na conta e o XIRR de trackers como o P2P Dash - contam o dinheiro em recuperação ao valor que a plataforma estima recuperar, e só o tratam como perda quando é formalmente abatido. Ou seja, medem quanto valeria a tua carteira se as recuperações corressem como previsto, não com quanto dinheiro sais no fim. Para essa pergunta - entro com X, saio com quanto daqui a uns anos? - olha para o ciclo completo: nos dados da própria Mintos, 2020-2024 rendeu 6,0% anualizados, com dois anos em que as perdas anularam ou ultrapassaram os juros. E mesmo estes 6% dependem das estimativas de recuperação da própria Mintos - se as recuperações correrem pior, o realizado ainda desce. A resposta honesta está mais perto dos 6% do que dos 10%.
O que é a Mintos?
A Mintos é operada pela AS Mintos Marketplace, uma sociedade anónima registada na Letónia com o número 40103903643 e sede em Skanstes iela 50, Riga. A empresa foi registada em junho de 2015 e o acionista único é a AS Mintos, que se chamou AS Mintos Holdings até abril de 2026.
Em agosto de 2021 obteve a licença de sociedade de investimento (n.º 06.06.08.719/534, atualizada em novembro de 2024). Isso significa que deixou de ser apenas um marketplace de empréstimos e passou a ser uma empresa financeira autorizada ao abrigo da DMIF II, a diretiva europeia dos mercados de instrumentos financeiros.
Segundo o relatório consolidado de 2025, a plataforma fechou o ano com 795 milhões de euros de ativos sob gestão e 664 mil utilizadores registados. O site anuncia hoje mais de 700 mil utilizadores e mais de 800 milhões de euros sob gestão.

A oferta também mudou. A Mintos deixou de ser uma plataforma de um só produto e passou a incluir obrigações, ETFs, imobiliário, produtos negociados em bolsa sobre criptomoedas e um fundo do mercado monetário.
O que podes (e não podes) investir a partir de Portugal
| Classe de ativos | O que é | Disponível em Portugal |
|---|---|---|
| Empréstimos (Notes) | Títulos garantidos por conjuntos de 6 a 20 empréstimos, mínimo de 50€ | Sim |
| Obrigações | Obrigações de empresas em formato fracionado, a partir de 50€ | Sim |
| ETFs | Mais de 1.000 ETFs, fracionados a partir de 1€, sem comissão de ordem | Sim |
| Imobiliário | Títulos garantidos por imóveis de arrendamento na Áustria, Letónia, Polónia e Dinamarca | Sim |
| Criptomoedas | Produtos negociados em bolsa (ETP), a partir de 5€ | Sim |
| Smart Cash | Fundo do mercado monetário gerido pela BlackRock | Não |
O Smart Cash é o produto que a Mintos mais promove na página inicial, mas não está disponível para residentes fiscais em Portugal. A lista de países elegíveis publicada pela Mintos inclui Espanha, França, Alemanha, Itália e mais uma dúzia de mercados, mas não Portugal. Se abrires conta a partir daqui, é um produto que simplesmente não vais conseguir subscrever.
Regulação: quem supervisiona a Mintos
Esta é a secção mais importante do artigo, e é também aquela em que a Mintos se distingue claramente das plataformas de crowdlending não reguladas.
A AS Mintos Marketplace é supervisionada pelo Latvijas Banka, o banco central da Letónia, que é a autoridade competente para a supervisão de serviços de investimento naquele país. Em Portugal, a Mintos opera ao abrigo do passaporte europeu, em regime de livre prestação de serviços. Na prática, isto quer dizer que a supervisão continua a ser letã e não da CMVM, e é junto do Latvijas Banka que corre qualquer processo de reclamação regulatória.
Ainda assim, consegues confirmar a Mintos do lado português. A AS Mintos Marketplace consta da lista de empresas de investimento a atuar em regime de livre prestação de serviços publicada pela CMVM, com a receção e transmissão de ordens sobre valores mobiliários entre os serviços autorizados.

O que a regulação te dá, na prática
- Segregação de ativos: os instrumentos financeiros são registados em contas separadas do património da Mintos, e os fundos não investidos são mantidos em contas de salvaguarda em bancos licenciados na União Europeia e na Suíça. Nas palavras do documento de riscos da Mintos, os bancos reconhecem que esses fundos não são depósitos, mas fundos de terceiros numa conta especial aberta em nome dos clientes.
- Auditoria obrigatória da salvaguarda: a lei letã do mercado de instrumentos financeiros obriga a uma auditoria anual às práticas de salvaguarda dos fundos e instrumentos dos clientes, cujo relatório é entregue ao regulador. O relatório de 2025 indica que essa auditoria foi realizada e que não foram reportadas deficiências.
- Sistema de indemnização aos investidores: a Mintos é participante do sistema letão de proteção dos investidores, criado ao abrigo da Diretiva 97/9/CE. Podes confirmar a inscrição diretamente na lista de participantes publicada pelo Latvijas Banka, na categoria das sociedades de investimento. A proteção vai até 20.000€ e aplica-se independentemente do país de residência do investidor.
- Teste de adequação obrigatório: antes de investires tens de responder a um questionário que determina que produtos ficam disponíveis para ti e que define um limite de investimento. É uma exigência da DMIF II que as plataformas não reguladas não têm.
- Prospetos aprovados pelo regulador: cada série de Notes tem um ISIN, um prospeto de base aprovado pelo Latvijas Banka, Final Terms e um documento de informação fundamental (KID).
- Contas auditadas e públicas: as demonstrações financeiras são auditadas pela KPMG Baltics segundo as normas IFRS e publicadas no site.
- Requisitos prudenciais de capital: a Mintos é classificada como sociedade de investimento de classe 2 ao abrigo do Regulamento (UE) 2019/2033, faz avaliações internas de adequação de capital e reporta os fundos próprios ao Latvijas Banka trimestral e anualmente.
- Supervisão alargada a todo o grupo: desde o primeiro trimestre de 2025, por decisão do Latvijas Banka, a AS Mintos foi identificada como sociedade gestora de participações de investimento-mãe na União ao abrigo do mesmo regulamento, e o grupo passou a ser supervisionado também em base prudencial consolidada, com reporte trimestral de fundos próprios consolidados. É um grau de escrutínio acima do que existia até 2024.
- Instituição de moeda eletrónica dentro do grupo: os pagamentos são operados pela Mintos Payments SIA, também licenciada e supervisionada pelo Latvijas Banka, ao abrigo da lei letã dos serviços de pagamento e da moeda eletrónica.
Três limites que tens de perceber
1. O sistema de indemnização não cobre perdas de investimento. Cobre situações em que a Mintos não te devolve os instrumentos financeiros ou o dinheiro: fraude, má prática administrativa, insolvência da empresa. Se o devedor deixar de pagar, ou se uma empresa de crédito falhar a obrigação de recompra, não há qualquer compensação. Isto está escrito de forma explícita no documento de divulgação sobre o sistema de compensação.
2. Os investimentos antigos por contratos de cessão não estão cobertos. Até junho de 2022, a Mintos operava por "claims", direitos de crédito adquiridos através de acordos de cessão, um modelo próximo do que a Scramble usa hoje. A própria Mintos escreve que esse tipo de investimento fica fora da supervisão regulatória e que está a ser descontinuado, e o documento de divulgação confirma que o sistema de compensação não se aplica a esses investimentos. A 31 de dezembro de 2025 ainda existiam 106,3 milhões de euros de claims em aberto na plataforma. Se tiveres uma conta antiga, vale a pena veres o que ainda está nesse formato.
3. Há uma inconsistência na comunicação sobre o valor da proteção. A página Managing investment risk da Mintos afirma que a compensação máxima é de 90% da perda líquida, até 20.000€. Já o rodapé do site, o documento oficial de divulgação da própria Mintos e a Lei de Proteção dos Investidores letã referem o montante das dívidas pendentes até 20.000€, sem qualquer limite de 90%. É uma diferença material para o investidor e é algo que a Mintos deveria uniformizar.
E a licença bancária?
No relatório de 2025, a gestão descreve como marco mais importante à sua frente a obtenção de uma licença bancária junto do Banco Central Europeu, e afirma estar a preparar a candidatura. Se for concedida, traria proteção de depósitos até 100.000€ e acesso a financiamento através de depósitos de clientes. Convém ser claro: é um plano anunciado, não um facto, e à data desta análise a candidatura ainda nem tinha sido submetida.
Vantagens e desvantagens
Prós
- Sociedade de investimento licenciada e supervisionada pelo Latvijas Banka desde 2021
- Sistema de indemnização aos investidores até 20.000€ (Diretiva 97/9/CE)
- Segregação de ativos obrigatória, com auditoria anual entregue ao regulador
- Contas anuais auditadas pela KPMG Baltics e publicadas no site
- Prospetos aprovados pelo regulador, ISIN por série de Notes e documentos de informação fundamental
- Oferta multiativos numa única conta: empréstimos, obrigações, ETFs, imobiliário e criptomoedas
- ETFs sem comissão de compra e venda, fracionados a partir de 1€
- Mercado secundário disponível para sair antes do vencimento
- Plataforma, apoio e documentação legal disponíveis em português
Contras
- O risco de crédito dos empréstimos é integralmente do investidor e não está coberto por nenhum sistema de compensação
- A obrigação de recompra vale apenas o que valer a empresa de crédito que a assume, e já houve incumprimentos
- O Mintos Risk Score é uma avaliação interna e a própria Mintos avisa que não deve ser tratado como notação de risco
- Cerca de 74% da receita vem de comissões pagas pelas empresas de crédito cujo risco a Mintos avalia
- Grupo ainda deficitário ao 11.º exercício, com prejuízo de 2,28 milhões de euros em 2025
- Comissão de inatividade de 4,90€ por mês
- Smart Cash indisponível para residentes fiscais em Portugal
- Liquidez do mercado secundário não é garantida e a venda custa 0,85%
- Obrigações fiscais manuais em Portugal, sem retenção na fonte nem agente pagador nacional
Empréstimos: a parte da Mintos mais parecida com a Scramble
Se há uma secção da Mintos que se aproxima de uma plataforma de crowdlending clássica, é esta. A diferença está na embalagem jurídica.
Como funcionam as Notes
Hoje não investes diretamente num empréstimo. Compras Notes (Notas, na documentação em português), instrumentos financeiros emitidos por uma entidade com finalidade específica (SPE) do grupo Mintos. Cada série agrega entre 6 e 20 empréstimos com características semelhantes, tem um ISIN próprio, um valor nominal de 0,01€ por Note e um investimento mínimo de 50€, ou seja, 5.000 Notes por série.

Dois pontos que estão no documento de divulgação de riscos da Mintos, disponível em português, e que raramente aparecem em conteúdos promocionais:
- Não tens recurso direto contra o devedor. A titularidade jurídica dos valores a receber dos empréstimos pertence ao emitente das Notas, não a ti, e não podes atuar de forma independente contra o devedor para cobrar pagamentos.
- Só recebes depois de obrigações de prioridade superior. Impostos e custos de recuperação vêm à frente, e o resultado de um processo de insolvência ou judicial pode anular a prioridade dos credores definida no prospeto.
A obrigação de recompra (buyback)
Se um dos empréstimos subjacentes estiver mais de 60 dias em atraso, a empresa de crédito é obrigada a recomprá-lo pelo valor nominal mais juros acumulados. Todas as Notes de empréstimos atualmente listadas incluem esta obrigação.
É um mecanismo útil, mas convém citar a própria Mintos: a obrigação de recompra vale apenas tanto quanto a empresa que a assume. Se essa empresa falhar, ficas diretamente exposto ao incumprimento do devedor. E isto não é hipotético: várias empresas de crédito na plataforma falharam obrigações de recompra ao longo dos anos, e existem montantes de investidores em processo de recuperação há bastante tempo.
Antes de investires, vale a pena olhar para o estado de cada empresa de crédito na plataforma (ativa, com pagamentos em atraso, suspensa, em recuperação ou em incumprimento) e para o valor total em recuperação.
O Mintos Risk Score
A Mintos atribui a cada série de Notes uma pontuação de 1 a 10, calculada a partir de quatro subscores: desempenho da carteira de empréstimos (40%), eficiência do servicer (25%), força da obrigação de recompra (25%) e estrutura de cooperação jurídica (10%). É atualizada trimestralmente.
É uma ferramenta útil e mais transparente do que a maioria das alternativas. Mas repara no que a própria página do Mintos Risk Score diz: em circunstância alguma deve ser tratado como uma notação de risco na aceção do Regulamento (CE) n.º 1060/2009 sobre agências de notação. É uma avaliação interna da Mintos, não um rating independente.
Liquidez
As Notes têm prazo fixo e, em regra, tens de as manter até à maturidade. Para sair antes, só através do mercado secundário da Mintos, com uma comissão de 0,85% sobre a venda. A Mintos não garante a procura no mercado secundário, nem a disponibilidade do próprio mercado secundário, e podes ter de vender com desconto.

Em resumo: continua a ser crédito ao consumo de rendimento elevado, boa parte dele de curto prazo, originado por empresas em geografias muito variadas. A regulação não altera a natureza do ativo. Altera o enquadramento em que o compras, a informação a que tens direito e o que acontece se for a plataforma a falhar.
Comissões: onde é que a Mintos ganha dinheiro
| Item | Custo |
|---|---|
| Abertura e manutenção de conta | 0€ |
| Depósitos por transferência bancária | 0€ |
| Depósitos por cartão, Apple Pay ou Google Pay | 2% do montante |
| Levantamentos | 0€ |
| ETFs, imobiliário e investimentos manuais em empréstimos e obrigações | 0€ |
| Carteiras Core Loans, High-Yield e Conservative | 0,39% ao ano |
| Carteira Custom Loans | 0,29% ao ano |
| Carteira High-Yield Bonds | 0,39% ao ano |
| ETP de criptomoedas | 0,49% por transação, mínimo 0,99€ |
| Mercado secundário | 0,85% sobre a venda |
| Câmbio de divisas | A partir de 0,50% |
| Inatividade | 4,90€ por mês |
A lista completa está na página de comissões. Dois pontos merecem destaque:
A comissão de inatividade não é simbólica. Em 2025, rendeu 502.809€ à Mintos, mais do dobro dos 245.334€ de 2024. Se abrires conta para experimentar e depois a deixares parada, o saldo vai sendo consumido a 4,90€ por mês.
Quem paga a maior parte da conta são as empresas de crédito. Em 2025, 10,69 milhões de euros dos 14,47 milhões de receita total vieram de comissões de serviço cobradas às empresas de crédito, cerca de 74% do total. Ou seja, a mesma entidade que avalia o risco das empresas de crédito e que distribui os seus produtos aos investidores é remunerada por essas empresas.
Isto não é uma acusação à Mintos, é a forma como quase todo o setor funciona. O próprio documento de riscos da Mintos reconhece, na secção dos conflitos de interesses, que os melhores interesses da instituição de crédito, dos investidores e da Mintos podem não estar alinhados. A diferença face a uma plataforma não regulada é que aqui existem exigências de governação de produto, de gestão documentada de conflitos e de supervisão externa. Mas o incentivo continua lá, e deves tê-lo presente quando leres um Risk Score.
Obrigações: a Mintos compra primeiro e distribui depois
As obrigações foram o produto que mais cresceu em 2025: o número de investidores alocados a esta classe subiu 61% e o montante investido 116%. A mecânica por trás merece uma nota, porque não é evidente para quem compra.

A compra fracionada de obrigações de terceiros passa por uma subsidiária do grupo, a Mintos Fractional Investments, que adquire os títulos antes de os distribuir aos investidores. Para financiar essa aquisição, a subsidiária tem uma linha de crédito junto do Signet Bank, com taxa de juro efetiva de 6,10% no final de 2025 e prazo prorrogável até setembro de 2029. O grupo limita cada exposição individual a 200.000€ e mantém as posições tipicamente apenas algumas semanas, até serem colocadas.
Na prática, isto quer dizer que durante um curto período a obrigação está no balanço do grupo e não no teu, e que existe um risco de colocação que a Mintos assume. Para o investidor final, o efeito é sobretudo o de ter acesso fracionado a obrigações que, em regra, exigiriam ordens muito maiores. Vale a pena saberes que o mecanismo existe.
ETFs: aqui a Mintos aproxima-se de uma corretora
A Mintos oferece mais de 1.000 ETFs de emitentes como a iShares, Vanguard, Amundi, Invesco ou Xtrackers, sem comissão de compra ou venda e com negociação fracionada a partir de 1€. Existe ainda a carteira automatizada Core ETFs, a partir de 50€, sem comissão de gestão e com rebalanceamento e reinvestimento automáticos. O custo anual do próprio ETF (TER) continua a ser cobrado pelo emitente, como em qualquer corretora.

Há aqui um ponto de atenção que a Mintos documenta e que vale a pena leres com calma. Segundo o documento de divulgação de riscos, as unidades fracionadas de ETF não são negociáveis de forma independente numa bolsa de valores e não existem como instrumentos distintos ao nível de uma central de valores mobiliários. A liquidez dessas unidades é proporcionada pelo fornecedor de infraestrutura da Mintos e não é garantida pelo mercado. Em caso de perturbação operacional significativa desse fornecedor, as posições fracionadas podem ser mais difíceis de transferir para outro prestador de serviços ou de recuperar do que as unidades inteiras, e podes sofrer atrasos no acesso ou na venda.
Vale a pena perceber quem está nesta cadeia, porque a Mintos identifica-o na política de execução de ordens. Quando compras um ETF, a Mintos transmite a ordem à Upvest Securities GmbH, uma corretora alemã supervisionada pela BaFin, que a executa na Tradegate. A compra da unidade inteira acontece, portanto, num mercado regulamentado e não fora de bolsa. É a mesma Tradegate onde a DEGIRO executa a sua seleção de ETFs sem comissão.
O que é fracionado é a camada de cima. Os custodiantes registam a titularidade das unidades inteiras e a Mintos regista as frações, o que significa que partilhas a propriedade de cada unidade com outros investidores da plataforma. Enquanto as tuas frações não somarem uma unidade completa não tens título legal sobre ela, e não podes transferi-las para fora da Mintos.
Há ainda um pormenor por corrigir do lado da Mintos. O imprint continua a afirmar que todos os instrumentos financeiros disponíveis na plataforma são vendidos fora de bolsa, o que deixou de ser verdade para ETFs, ações e ETP de criptomoedas a partir do momento em que a execução passou a correr pela Tradegate. É uma frase herdada da altura em que a plataforma só tinha Notes, mas quem a lê hoje fica com uma ideia errada.
Isto não é exclusivo da Mintos, é a natureza do investimento fracionado em geral. Mas se o teu objetivo for exclusivamente construir uma carteira de ETFs de longo prazo, faz sentido comparar com as corretoras que analisamos habitualmente, algumas das quais também não cobram comissão de ordem em ETFs e mantêm as posições em unidades inteiras.
O que revela o relatório anual de 2025
Ao contrário do que acontece com plataformas não supervisionadas, aqui há contas completas, auditadas por uma Big Four e publicadas. Analisámos o relatório consolidado do grupo AS Mintos, a empresa-mãe que se chamou AS Mintos Holdings até abril de 2026, relativo ao exercício de 2025, assinado a 8 de julho de 2026 e auditado pela KPMG Baltics segundo as normas IFRS adotadas na União Europeia.
- Receita de 14,47 milhões de euros, mais 16% do que os 12,43 milhões de 2024.
- Prejuízo total abrangente de 2,28 milhões de euros, melhor do que os 2,74 milhões de 2024. Excluindo o custo dos planos de opções sobre ações, o prejuízo foi de 1,9 milhões, contra 2,3 milhões no ano anterior. É o 11.º exercício do grupo e ainda não houve um ano de lucro.
- Capitais próprios positivos de 5,14 milhões de euros: capital social e prémios de emissão de 14,28 milhões, contra perdas acumuladas de 10,08 milhões. É uma diferença importante face a plataformas com capitais próprios negativos.
- Caixa de 5,79 milhões de euros no final do ano, acima dos 5,18 milhões de 2024.
- Financiamento caro: dois empréstimos de 1 milhão de euros cada junto do fundo FlyCap, com taxas de juro efetivas de 18,04% e 18,19%, e obrigações subordinadas de 1,5 milhões a 10 anos com cupão de 12%. Ambos os instrumentos contam como fundos próprios de nível 2.
- Reforço de capital após o fecho do exercício: o grupo captou 6,15 milhões de euros, dos quais 5,2 milhões entraram no capital social da AS Mintos Marketplace.
- Ativos de clientes fora do balanço: 618 milhões de euros em instrumentos financeiros e 65,1 milhões em caixa segregada, num total de 683,1 milhões, além dos 106,3 milhões de claims antigos. Como a Mintos não suporta o risco destes ativos, eles não figuram no seu balanço, o que é exatamente o que se espera de uma estrutura de salvaguarda correta.
- Capitalização de custos de desenvolvimento: 3,38 milhões de euros de salários de equipas de IT foram capitalizados como ativo intangível e são amortizados a 3 anos. É prática comum e aceite, mas significa que o prejuízo contabilístico seria maior se estes custos fossem reconhecidos de imediato. Vale a pena acompanhar.
A leitura global é bastante mais tranquilizadora do que a de uma micro-empresa não supervisionada: capitais próprios positivos, requisitos prudenciais cumpridos em base individual e consolidada, auditor independente de referência e ativos de clientes segregados e verificados. Ainda assim, 11 anos depois do arranque, o grupo continua a depender de capital externo para financiar o crescimento.
Os principais riscos
- Risco de crédito: se o devedor não pagar e a empresa de crédito não recuperar o dinheiro, deixas de receber. Nenhum sistema de compensação cobre isto.
- Risco da empresa de crédito: a obrigação de recompra depende da solvência de quem a assume. Já houve incumprimentos na plataforma e capital de investidores por recuperar durante anos.
- Risco do emitente das Notes: a SPE emitente pode entrar em incumprimento. A Mintos mitiga-o mantendo-a como entidade de finalidade única, sem outra atividade.
- Risco de liquidez: prazo fixo, saída antecipada apenas no mercado secundário, sem garantia de procura e com comissão de 0,85%.
- Risco de plataforma: a Mintos pode ficar insolvente ou perder a licença. É aqui que o sistema de indemnização até 20.000€ atua, mas só quanto a instrumentos e fundos não devolvidos.
- Risco de contraparte bancária: se um dos bancos onde a Mintos guarda os fundos não investidos se tornar insolvente, o acesso a esse dinheiro pode ser interrompido ou os fundos podem ser parcial ou totalmente perdidos. A Mintos afirma no documento de riscos que não é obrigada, por lei ou contrato, a compensar essas perdas.
- Risco cambial: aplicável a Notes denominadas em moeda diferente do euro, e também à moeda dos empréstimos subjacentes, que pode não coincidir com a moeda de listagem.
- Conflitos de interesse: a maior parte da receita da Mintos vem das empresas cujo risco avalia.
- Risco de intermediários: a estrutura envolve empresas intermediárias do grupo no encaminhamento de pagamentos.
- Risco regulatório: o enquadramento do crédito alternativo é recente e pode mudar em qualquer das geografias envolvidas.
Posso tirar o dinheiro quando quiser?
Não - e é aqui que a maioria se queima.
As Notes têm prazo fixo. Para sair antes, só no mercado secundário: pagas 0,85% e precisas de haver comprador - em alturas de stress não há, ou só aceitando vender com desconto. O buyback também não te dá liquidez imediata: só dispara aos 60 dias de atraso, e as empresas de crédito podem prolongar o empréstimo até seis vezes antes disso - no passado, a Mintos aumentou este limite de extensões e aplicou-o retroativamente a empréstimos já emitidos. Quando um originador falha mesmo, entras na fila das recuperações: nos relatos da comunidade portuguesa, há dinheiro parado desde a pandemia, com devoluções parciais ao fim de 2 a 4 anos.
E há o custo de quem simplesmente se esquece: a comissão de inatividade de 4,90€ por mês rendeu 502.809€ à Mintos em 2025, o dobro do ano anterior. Se abriste conta para experimentar e deixaste lá 100€, em dois anos a comissão come-os quase todos. Regra prática: ou tens um plano ativo de reinvestimento, ou levantas tudo e fechas a conta. Saldos esquecidos só pagam comissões.
Fiscalidade para residentes em Portugal
A Mintos não é agente pagador em Portugal e não faz retenção na fonte portuguesa. A responsabilidade de declarar é inteiramente tua. Em traços gerais:
- Juros das Notes, das obrigações e dos títulos de imobiliário: rendimentos de capitais (categoria E), Anexo J da Modelo 3, quadro 8A, código E21 (juros sem retenção em Portugal), país da fonte Letónia. Tributação autónoma de 28% ou englobamento, se for mais vantajoso.
- Mais-valias na venda de Notes no mercado secundário, de obrigações, de ETFs ou de ETP: categoria G, Anexo J, quadro 9.2A, à taxa de 28%.
- ETFs de acumulação não distribuem rendimento, pelo que só há imposto no momento da venda. Nos ETFs de distribuição, os rendimentos distribuídos entram como rendimentos de capitais.
A Mintos disponibiliza relatórios fiscais na conta, que deves usar como base. Como a estrutura envolve várias classes de ativos e várias jurisdições, esta é uma situação em que compensa confirmar o preenchimento com um contabilista.
Mintos, Scramble e uma corretora regulada: o que muda
| Item | Corretora regulada na UE | Mintos | Scramble |
|---|---|---|---|
| Supervisão | Reguladores europeus (CMVM, CySEC, KNF, etc.) | Latvijas Banka, ao abrigo da DMIF II | Nenhuma |
| Sistema de indemnização ao investidor | Sim, até 20.000€ | Sim, até 20.000€ (não abrange os claims antigos) | Não existe |
| Segregação de ativos | Obrigatória e auditada | Obrigatória e auditada, com relatório entregue ao regulador | Declarada pela empresa, sem verificação externa |
| Contas auditadas | Sim | Sim, pela KPMG Baltics | Contas em versão curta, sem auditoria externa mencionada |
| Produto principal | Ações, ETFs e obrigações | Crédito ao consumo em formato titularizado, mais ETFs e obrigações | Créditos cedidos sobre pequenas marcas, sem rating |
| Liquidez | Diária, em bolsa | Mercado secundário próprio, sem garantia de procura | Nula até ao vencimento |
| Quem suporta o risco de crédito | Depende do ativo | O investidor | O investidor |
A conclusão que interessa: a regulação reduz muito o risco de contraparte e de má conduta, mas não reduz o risco de mercado nem o risco de crédito. São camadas de proteção diferentes e não se substituem.
Para quem é (e para quem não é)
A parte de empréstimos da Mintos pode fazer sentido para investidores que já têm a base montada (fundo de emergência, ETFs globais, eventualmente obrigações), que compreendem o que é crédito ao consumo de rendimento elevado e que alocam a esta classe apenas uma fatia pequena do património, com dinheiro que podem ver bloqueado durante meses.
A parte de ETFs é outra conversa e pode servir um perfil mais generalista, sobretudo pela ausência de comissões de ordem. Aí, o critério de escolha deve ser o habitual: custos totais, forma de detenção dos títulos, facilidade de transferência e apoio ao cliente.
Não é adequada para o fundo de emergência, para objetivos de curto prazo, nem para quem procura capital garantido. E, se estás a começar a investir, o teste de adequação da própria plataforma vai provavelmente limitar-te o acesso a parte da oferta, o que é precisamente o mecanismo a funcionar como devia.
O que dizem os investidores
Lemos dezenas de relatos nas comunidades de finanças pessoais portuguesas e europeias (r/literaciafinanceira e r/eupersonalfinance). Os padrões repetem-se.
Quem escolhe bem os originadores e sai ao primeiro sinal de problema reporta 13% a 17% ao ano - mas descreve isso como trabalho ativo de monitorização, não como rendimento passivo. No extremo oposto, quem apanhou a pandemia e a guerra na Ucrânia com carteiras concentradas relata perdas até 25% do capital e recuperações parciais que ainda decorrem. Vários investidores portugueses descrevem centenas ou milhares de euros em recuperação durante 2 a 4 anos - alguns com final feliz, outros ainda à espera. Há também relatos recentes de contas pequenas encerradas unilateralmente, sem justificação - prática legal e comum nas instituições financeiras, mas que apanha muita gente de surpresa. E nota-se um movimento entre os veteranos: criadores que acompanharam o setor durante 6 a 8 anos têm fechado posições, citando o trabalho de monitorização constante e a fiscalidade desfavorável face a ETFs de acumulação.
Entre os relatos portugueses públicos, a Dama de Ouros - investidora desde 2019 - reporta 2.361€ de juros acumulados e rentabilidades anuais de 11% a 16%, num artigo patrocinado pela própria Mintos, como a autora assinala. É mais um motivo para olhares primeiro para dados agregados e independentes, como os do P2P Dash.
Veredicto
A Mintos é o exemplo de uma plataforma de crowdlending que fez a transição para o enquadramento regulado, e isso nota-se em tudo: prospetos aprovados, ISIN, KID, teste de adequação, segregação auditada, contas públicas auditadas pela KPMG e um sistema de indemnização a que podes efetivamente recorrer se a empresa falhar contigo. Face a plataformas que continuam fora de qualquer supervisão, a diferença é substancial.
Três notas para fechar:
- O que a regulação protege é a relação entre ti e a Mintos, não o desempenho dos empréstimos. Se um devedor ou uma empresa de crédito falhar, o prejuízo é teu e não há compensação.
- A obrigação de recompra é o principal argumento comercial do produto e vale exatamente o que valer a solvência de quem a assume, algo que o histórico da plataforma já demonstrou.
- Ao 11.º ano, a Mintos ainda dá prejuízo e financia-se a taxas que rondam os 12% a 18%, o que significa que a trajetória para a rentabilidade continua a ser um ponto a acompanhar, mesmo com capitais próprios positivos e supervisão prudencial.
Se decidires abrir conta na Mintos, olha para cada classe de ativos com critérios próprios e trata os empréstimos como a componente de risco elevado da carteira. E, seja qual for a plataforma onde investires, escolhe sempre uma que seja licenciada e supervisionada por uma autoridade europeia.
Perguntas frequentes
Quanto rende a Mintos na prática?
A mediana dos investidores reais está nos 10,9% líquidos por ano, com metade das carteiras entre 9,0% e 12,6% (dados agregados do P2P Dash). Atenção: estes números contam o dinheiro em recuperação ao valor estimado. Em termos realizados, o ciclo 2020-2024 rendeu 6,0% anualizados nos dados da própria Mintos, com 2022 negativo (-1,2%).
Posso levantar o dinheiro quando quiser?
Não. As Notes têm prazo fixo; sair antes implica vender no mercado secundário (0,85% de comissão, sem procura garantida). Se um originador falhar, o dinheiro pode ficar em recuperação durante anos. E contas paradas pagam 4,90€ por mês de inatividade.
O que acontece se uma empresa de crédito falir?
A obrigação de recompra deixa de valer e entras na fila da recuperação, que pode demorar anos e ser parcial. O sistema de indemnização de 20.000€ não cobre este cenário - só protege se for a própria Mintos a falhar contigo.
A Mintos é segura?
É regulada, auditada e com ativos segregados - o risco de fraude da plataforma é baixo. Mas a regulação não elimina o risco de crédito: 28,8% da carteira atual está em recuperação e há 12,4 milhões de euros de perdas confirmadas de investidores.
Quanto devo investir na Mintos?
No máximo 5 a 10% do património, depois de teres fundo de emergência e uma carteira base de ETFs - e só dinheiro que possas ver bloqueado durante anos.
Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Investe com responsabilidade.




