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21.08.2026

Seguros de capitalização: o que são, como funcionam e vale a pena?

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Os seguros de capitalização são um dos produtos de poupança mais vendidos ao balcão em Portugal e, ao mesmo tempo, um dos menos compreendidos. São apresentados como alternativa aos depósitos a prazo, com "capital garantido" e "impostos mais baixos". Na prática, são contratos de seguro, com regras próprias, custos que nem sempre saltam à vista e uma proteção diferente da que tens num banco.

Neste artigo explicamos o que são, quanto pagas de imposto, em que é que são diferentes de um PPR, quem os vende em Portugal e em que casos vale ou não a pena.

O que é um seguro de capitalização

É um contrato feito com uma seguradora. Entregas dinheiro, a seguradora investe-o e devolve-te esse dinheiro mais o rendimento que ele gerou, no fim do contrato ou quando pedires o resgate.

Tem "seguro" no nome porque é juridicamente um seguro de vida, mas o objetivo não é proteger-te de um acidente, mas sim fazer crescer a poupança.

Há dois tipos: com capital garantido (o mais vendido, comparável a um depósito a prazo) e unit-linked (ligado aos mercados, onde podes perder dinheiro).

A diferença face a um depósito a prazo é a seguinte: num depósito o teu dinheiro está num banco, supervisionado pelo Banco de Portugal. Num seguro de capitalização está numa seguradora, vigiada pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Muda quem vigia, mudam as regras de proteção e mudam os impostos.

Os imposto sobre os ganhos descem com o tempo: 28% antes de 5 anos, 22,4% entre 5 e 8, e 11,2% depois de 8 anos. Faz mais sentido para objetivos a 5-8 anos, depois de esgotares o desconto do PPR no IRS.

Há dois tipos, e a diferença é enorme

Ambos se chamam seguros de capitalização, mas não têm nada a ver um com o outro. Segundo a ASF, um seguro de capitalização pode ser de dois tipos: não ligado a fundos de investimento, ou ligado a fundos de investimento.

  • Não ligado a fundos, o chamado capital garantido. A seguradora garante que não perdes o dinheiro que entregaste e paga-te uma taxa de juro definida por ela (não estás exposto à bolsa). É este o produto que as pessoas comparam com um depósito a prazo.
  • Ligado a fundos, o chamado unit-linked. O valor da tua apólice sobe e desce conforme os mercados. Por norma, não há capital garantido: se os mercados caírem, perdes dinheiro. É um investimento, não uma poupança segura.

Isto quer dizer que o unit-linked é, tecnicamente, um tipo de seguro de capitalização, e não um produto diferente. Mas na linguagem do dia a dia usam-se como se fossem coisas opostas. Confirma sempre qual dos dois estás a subscrever. Está escrito no Documento de Informação Fundamental, aquele resumo de duas ou três páginas que a seguradora é obrigada a dar-te antes de assinares.

Como funciona no dia a dia

  • Podes entregar tudo de uma vez (normalmente a partir de 100€ ou 500€) ou fazer entregas mensais (a partir de 25€ ou 50€).
  • Muitos produtos têm prazo de 5 anos e 1 dia, porque é a partir daí que o imposto desce.
  • A taxa de juro é definida pela seguradora e costuma ser revista de tempos a tempos. Atenção: em vários produtos, a taxa mais alta só se aplica no primeiro ano.
  • Alguns produtos partilham contigo parte dos lucros da seguradora, a chamada participação nos resultados. Muitos dos que se vendem hoje simplesmente não dão esse direito, por isso confirma.
  • Podes resgatar, no todo ou em parte, nas condições previstas no contrato. Muitos permitem-no a qualquer momento; outros cobram uma comissão se levantares nos primeiros anos.
  • Se levantares só uma parte, sai primeiro o dinheiro que entrou primeiro. Isto é bom para ti, porque é a parcela mais antiga, aquela que já paga menos imposto.
  • Nem todos os contratos permitem indicar beneficiários em caso de morte. Confirma, porque isso muda o que acontece ao dinheiro se faltares.

Tributação: quanto pagas de imposto

Só pagas imposto quando levantas o dinheiro, e só sobre o que ganhaste, nunca sobre o que entregaste. Quanto mais tempo deixares lá o dinheiro, menos pagas.

Quando levantas o dinheiroImposto sobre o que ganhaste
Antes de 5 anos28%
Entre 5 anos e 1 dia e 8 anos22,4%
Depois de 8 anos e 1 dia11,2%

Quem tem residência fiscal na Madeira ou nos Açores paga menos: 19,6%, 15,68% e 7,84%, respetivamente.

Para teres direito às taxas mais baixas, pelo menos 35% do dinheiro total tem de ter sido entregue na primeira metade do contrato. Com entregas mensais iguais isto cumpre-se sozinho: metade das prestações cai na primeira metade do prazo, ou seja 50% do total, bem acima dos 35% exigidos. O risco está em deixar as entregas para o fim. Se só começares a poupar a sério nos últimos anos, ou se fizeres um reforço grande perto do vencimento, podes ficar abaixo do limite e pagar 28% sobre tudo. Em números: só falhas se na segunda metade entregares mais do que 1,86 vezes o que entregaste na primeira.

Se a pessoa segura morrer, o dinheiro pago aos beneficiários não paga Imposto do Selo.

Um exemplo com números

Imagina 10.000€ a render 2,30% por ano durante 8 anos, com a regra dos 35% cumprida.

Onde puseste o dinheiroFicas com
Seguro de capitalização, pagas 11,2% de imposto só no fimcerca de 11.771€
Depósito a prazo, pagas 28% de imposto todos os anoscerca de 11.404€

São cerca de 370€ de diferença em 8 anos. A vantagem vem de duas coisas: pagas menos imposto e só o pagas no fim, o que deixa o dinheiro todo a render entretanto. É uma vantagem real, mas modesta, e obriga-te a não mexer no dinheiro durante 8 anos. O cálculo assume juro sempre igual e zero comissões. Para o lado do depósito, podes fazer as tuas contas na calculadora de depósitos a prazo.

Tenho de declarar no IRS?

Se a seguradora for portuguesa, não. Ela desconta o imposto e entrega-o às Finanças por ti. Só tens de declarar se quiseres juntar este rendimento aos restantes na tua declaração, no anexo E, o que só compensa se a tua taxa de IRS for mais baixa do que a taxa aplicável.

Se a seguradora for estrangeira, sim. Não há desconto automático e tens de declarar o rendimento no anexo J. As taxas são exatamente as mesmas.

Um exemplo real: Fidelidade Savings

O Fidelidade Savings mostra bem a confusão que existe: dentro do mesmo contrato há quatro opções muito diferentes.

OpçãoO que éCapital garantidoComissão de gestão
SeguroPoupança com juro definido pela seguradora100%, sempreNão tem
ProteçãoUnit-linked ligado a um índice, com garantia parcial90%, só na data finalAté 1,2% ao ano
DinâmicoUnit-linked ligado a um índiceNão temAté 1,2% ao ano
ESGUnit-linked ligado a um índice sustentávelNão temAté 1,2% ao ano

Só a primeira é uma poupança com capital garantido. As outras três são do tipo ligado a fundos, ou seja unit-linked: se os mercados caírem, o dinheiro é teu e a perda também.

Como funciona a opção com capital garantido

  • O juro é fixado duas vezes por ano, para vigorar a partir de 1 de janeiro e de 1 de julho.
  • Não pode ser inferior a 80% da média recente da Euribor a 6 meses, nem superior a 4%. A seguradora pode dar mais do que esse mínimo, se quiser.
  • No segundo semestre de 2026 está em 2,30%.
  • Não há comissão de subscrição, de gestão nem de resgate. Tudo o que entregas é investido.
  • Entras com 25€ por mês ou 100€ de uma só vez. O máximo é 10.000€ por mês ou 100.000€ por entrega.
  • Esta opção não dá participação nos lucros da seguradora.
  • Só pode ser subscrita por pessoas com residência em Portugal, e cada cliente só pode ter uma apólice.

O juro segue a Euribor. Se as taxas de mercado descerem, a tua remuneração desce a seguir. Capital garantido não quer dizer juro garantido para sempre.

Seguro de capitalização ou PPR?

A confusão é natural, porque a maioria dos PPR com capital garantido é, por dentro, um seguro de capitalização. O que muda é o pacote de regras fiscais que o rótulo PPR traz.

Seguro de capitalizaçãoPPR
Desconto no IRS quando entregasNão tem20% do que entregas, até 400€ por ano abaixo dos 35 anos, 350€ dos 35 aos 50 e 300€ acima dos 50
Imposto quando levantas dentro das regras28% antes de 5 anos, 22,4% entre 5 e 8 anos, 11,2% depois de 8 anos8% a partir dos 5 anos
Imposto quando levantas fora das regrasNão há regras, o resgate segue o contrato21,5% antes de 5 anos, 17,2% entre 5 e 8 anos, 8,6% depois de 8 anos
Penalização por levantar fora das regrasNão existeSe aproveitaste o desconto do IRS, devolves esse valor com mais 10% por cada ano passado. Se nunca o aproveitaste, não há nada a devolver
Quando podes levantar sem penalizaçãoNas condições do contrato, sem justificar porquêReforma, desemprego prolongado, doença grave, incapacidade, 60 anos ou mais, prestação da casa
Mudar de produtoSó resgatandoPodes transferir para outro PPR, com custo máximo de 0,5%
Por onde escolherQuase só produtos de seguradoras, e não vês onde investemSeguros PPR e fundos PPR, incluindo fundos que publicam a carteira
Se a entidade falirSem fundo de garantiaNos fundos PPR o dinheiro está separado do da gestora; nos seguros PPR não

Em imposto, o PPR ganha nas duas pontas: dá desconto à entrada e paga 8% à saída, contra os 11,2% do seguro. O que muda com o montante é o peso do desconto à entrada, porque ele está travado em euros. Numa entrega de 2.000€ por ano, os 400€ de desconto valem 20% do que puseste lá. Numa entrega de 20.000€ continuam a ser 400€, ou seja 2%. Acima do limite anual, cada euro extra que pões no PPR já não traz desconto nenhum: traz apenas os 3,2 pontos de imposto poupados à saída, e em troca fica sujeito às regras de resgate. A pergunta deixa de ser fiscal e passa a ser se a liberdade do seguro compensa esses 3,2 pontos.

O que o seguro de capitalização tem de melhor

  • Levantas para o que quiseres, sem justificações. Não tens de provar desemprego, doença ou reforma a ninguém. O prazo e as comissões são os que estiverem no contrato, mas não há uma lista de motivos aceites.
  • Não há benefício para devolver. Também podes tirar dinheiro de um PPR para comprar casa (leia-se: dar uma entrada) ou pagar a faculdade dos filhos, e em imposto puro isso até pode sair mais barato: 8,6% depois dos 8 anos, contra os 11,2% do seguro. Se tiveres aproveitado o desconto do IRS ao longo dos anos, tens de o devolver, com mais 10% por cada ano passado. Se nunca o aproveitaste, não há nada a devolver e só pagas o imposto. Num seguro de capitalização a questão nem se põe.

O que o PPR tem de melhor

  • O desconto no IRS logo à entrada: 20% do que entregas, até 400€ por ano abaixo dos 35 anos. Nem toda a gente recebe o valor máximo, porque esta dedução concorre com as de saúde, educação e dependentes dentro de um limite global que depende do rendimento. Explicamos isso em detalhe no artigo sobre o que é um PPR.
  • 8% de imposto à saída, contra os 11,2% do melhor caso do seguro de capitalização. Esta vantagem é proporcional, por isso vale mais euros quanto maior for o montante.
  • Podes mudar de produto se o teu render pouco, com custo máximo de 0,5%. Num seguro de capitalização, sair significa resgatar, com o imposto e as comissões que isso implica.
  • Há muito mais por onde escolher, incluindo fundos PPR que publicam a lista do que compram - podes filtrá-los no nosso comparador de PPR.
  • Nos fundos PPR, o teu dinheiro está separado do dinheiro da gestora. Se ela tiver problemas, o teu património não é afetado.

Em matéria de herança os dois funcionam de forma parecida: em ambos podes indicar quem recebe o dinheiro se faltares, e essa pessoa não paga Imposto do Selo. Isso conta sobretudo se quiseres deixar dinheiro a um sobrinho, a um afilhado ou a um companheiro sem união de facto reconhecida, que de outra forma pagariam 10%.

Vê também como escolher o melhor PPR e a comparação entre PPR e Certificados de Aforro.

Vantagens e desvantagens

Vantagens

  • Imposto desce com o tempo, até 11,2% ao fim de 8 anos
  • Só pagas imposto no fim, por isso o dinheiro todo continua a render
  • Capital garantido, nas versões que não estão ligadas a fundos
  • Levantas sem teres de justificar porquê, ao contrário do PPR
  • Começas com pouco dinheiro, a partir de 25€ por mês
  • Podes escolher quem recebe o dinheiro se morreres, sem Imposto do Selo

Desvantagens

  • Não estão cobertos pelo Fundo de Garantia de Depósitos
  • Juros baixos e revistos de tempos a tempos, muitas vezes colados à Euribor
  • Não sabes em que é que a seguradora investe o teu dinheiro
  • Comissões que podem comer boa parte de um rendimento já pequeno
  • Não dão desconto no IRS, ao contrário do PPR
  • Pagam mais imposto à saída do que um PPR: 11,2% contra 8%
  • O imposto de 11,2% exige cumprir a regra dos 35%
  • Nos unit-linked, podes perder dinheiro e ainda pagas comissões por cima

Custos a verificar antes de assinar

Num produto que rende 2% ao ano, meio ponto percentual de comissões leva-te um quarto do rendimento. Vê estas quatro linhas:

  • Comissão de subscrição: cobrada sobre cada entrega. Muitos produtos não a têm, outros cobram 1% ou 2%.
  • Comissão de gestão anual: nos produtos de capital garantido costuma já estar refletida no juro anunciado, e por isso o número a comparar é o juro. Nos que estão ligados a fundos, soma-se aos custos dos próprios fundos e pode chegar a 1,2% ao ano.
  • Comissão de resgate: aplica-se se levantares cedo. Costuma ir diminuindo ao longo dos primeiros anos e nos produtos mais recentes tende a não existir.
  • Custo da garantia: quando um produto ligado a mercados promete devolver-te 90% do capital, essa promessa é comprada e paga por ti. Num contrato que analisámos custava cerca de 2% do que entregavas se o prazo fosse 1 ano, e 18,5% se fosse 5 anos.

Compara sempre o que sobra no fim, já sem comissões e sem imposto, com as alternativas: contas poupança, depósitos a prazo e Certificados de Aforro e do Tesouro.

Os riscos pouco explicados ao balcão

Não há fundo de garantia

Se puseres dinheiro num depósito a prazo e o banco falir, o Fundo de Garantia de Depósitos devolve-te até 100.000€. Nos seguros de capitalização não existe nada equivalente.

Depósito a prazo protegido até 100.000€ e seguro de capitalização sem fundo de garantia
Um depósito tem um valor garantido; um seguro de capitalização não

Aqui, a seguradora é obrigada a manter, em separado, dinheiro suficiente para pagar tudo o que deve aos clientes. Esse dinheiro está reservado para os contratos de seguro: não pode ser penhorado por outras dívidas nem dado como garantia a terceiros. Se um dia não chegasse, e se o resto do património da seguradora também não chegasse, não há mais ninguém a garantir (perderias parte do capital).

Nunca aconteceu em Portugal. A ASF vigia de perto o dinheiro que cada seguradora tem de ter de lado e exige-lhe capital próprio suficiente para aguentar cenários maus. Mas é diferente de ter uma garantia com um valor certo. Se tens montantes grandes, não ponhas tudo na mesma seguradora, tal como não porias tudo no mesmo banco.

Capital garantido não é rendimento garantido

Capital garantido quer dizer que não perdes o que entregaste. Não quer dizer que o juro se mantenha, nem que a seguradora vá partilhar lucros contigo. Um juro de 2,30% deixa-te, depois do imposto, pouco mais de 1,8% por ano. Se a inflação for 2,5%, estás a perder poder de compra todos os anos, mesmo com o capital "garantido".

As garantias parciais valem menos do que parecem

Nos produtos ligados a mercados, uma garantia de 90% do capital costuma valer só na data final. Se precisares do dinheiro a meio do caminho, a garantia não te protege de nada. E, como vimos, ela é paga por ti: quanto mais longo o prazo, mais cara fica.

Não sabes onde está o teu dinheiro

Ao contrário de um fundo de investimento, aqui não tens acesso à lista do que a seguradora comprou com o teu dinheiro. Estás a confiar na gestão dela e no juro que ela decidir dar-te.

Quem vende seguros de capitalização em Portugal

Bancos e seguradoras nacionais

O banco é quase sempre só o vendedor. O produto é de uma seguradora, e é essa seguradora que responde pelo teu dinheiro. Quando subscreves ao balcão da Caixa, do Millennium, do Santander, do novobanco ou do BPI, o contrato é com a seguradora do grupo ou com uma seguradora parceira.

Do lado das seguradoras, o mercado português inclui a Fidelidade, a Ageas Portugal, a Generali Tranquilidade, a Allianz Portugal, a Zurich, a Real Vida Seguros, a Lusitania Vida, a GamaLife, a Prévoir, a Bankinter Seguros de Vida e a Crédito Agrícola Vida. Várias vendem diretamente, sem passar por um banco. O Fidelidade Savings, por exemplo, subscreve-se por app.

Seguradoras estrangeiras

Companhias sediadas noutros países europeus também podem vender a residentes em Portugal, sem terem balcões cá. As mais presentes são a Baloise, do grupo suíço com o mesmo nome, e a Cardif Lux Vie, do grupo BNP Paribas, ambas a operar a partir do Luxemburgo.

Não competem pelo juro, competem pela estrutura. Três coisas concretas:

  • O dinheiro dos clientes fica depositado num banco separado da seguradora, e o regulador luxemburguês confirma essa separação a cada três meses. Se a seguradora tiver problemas, pode bloquear as contas para proteger os clientes.
  • Em caso de falência, os clientes são os primeiros da fila a receber, à frente do Estado e de qualquer outro credor.
  • Podes escolher onde o dinheiro é investido dentro do contrato: ETFs, fundos de várias gestoras ou uma carteira gerida por alguém em quem confias. Em Portugal, gestoras como a Optimize fazem essa gestão dentro de contratos emitidos pela Baloise.

Duas ressalvas importantes. Não se subscrevem online: é preciso passar por um mediador ou consultor registado na ASF. E os valores mínimos são altos, muitas vezes a partir de 250.000€ nas versões feitas à medida, o que as coloca fora do alcance da poupança normal. Junta-se a isso a obrigação de declarar tudo no anexo J, porque não há desconto automático do imposto.

Melhores seguros de capitalização: como escolher

Quem procura "o melhor seguro de capitalização" espera uma lista ordenada por rentabilidade. Essa lista não existe, e vale a pena perceber porquê.

Nos PPR há uma plataforma da ASF que publica, produto a produto, a rentabilidade dos últimos 1, 3, 5 e 10 anos. É uma base pública e comparável, e é o que sustenta a nossa análise dos PPR mais rentáveis.

Nos seguros de capitalização não existe nada equivalente. Não há comparador oficial nem série histórica publicada de forma sistemática. E boa parte dos produtos não anuncia taxa nenhuma, porque a remuneração não é fixada à cabeça: resulta da participação nos resultados da carteira e só se conhece depois de fechado o exercício.

O que interessa, então, é perceber como é que cada produto define o que te vai pagar.

Nos de capital garantido, quatro modelos

  • Taxa fixada anualmente pela seguradora. O Prévoir Capital anuncia 2,60% para 2026, fixada no primeiro mês do ano civil, com garantia de nunca ser inferior a zero. Entrada de 300€ ou 25€ por mês, encargos de aquisição até 0,60% e 0,50% de penalização se resgatares nos primeiros três anos.
  • Taxa com fórmula e revisão semestral. O Fidelidade Savings, opção Seguro, está em 2,30% no segundo semestre de 2026. A fórmula está no contrato: no mínimo 80% da média recente da Euribor a 6 meses, no máximo 4%. Mais previsível, mas desce quando a Euribor desce. Sem comissões.
  • Taxa anual com histórico publicado. O fundo GamaLife Capital Garantido, dentro do Global Invest Dual do novobanco, publica a série: 2,5% em 2024, 2,1% em 2025, 2,0% em 2026, e indica 2,0% para 2027 e 2028. Os anos futuros são indicativos e a taxa pode ser revista, podendo ser zero. Este fundo corresponde no máximo a 50% do que investes, com o resto em unit-linked.
  • Séries fechadas. O BPI Rendimento abre janelas de subscrição, fixa a taxa para todo o prazo e fecha. À data desta análise não há série em comercialização. Nota que aqui o capital só é garantido no vencimento: quem resgata antes pode perder.

Nos unit-linked não há taxa nenhuma

Nos seguros ligados a fundos não existe taxa a comparar, porque o rendimento é o dos mercados. Em contrapartida, há duas coisas que os de capital garantido raramente dão: o valor da unidade de conta é publicado, o que te permite ver o desempenho passado, e o Documento de Informação Fundamental traz o indicador de risco de 1 a 7 e o quadro de custos anuais. Explicamos como ler tudo isso no artigo sobre o que é um unit-linked.

Se não encaixar em nenhum destes

É porque a remuneração vem da participação nos resultados. Pede então, por escrito, o rendimento atribuído em cada um dos últimos cinco anos, a percentagem dos resultados que reverte para os clientes, e o quadro de custos do Documento de Informação Fundamental. Sem as três, não consegues comparar aquele produto com nada.

Taxas verificadas a 21 de agosto de 2026 junto de cada emitente ou distribuidor. O Fidelidade revê a 1 de janeiro e a 1 de julho, os restantes no início de cada ano civil.

Então, vale a pena?

Pode fazer sentido se:

  • Tens um objetivo a 5 ou 8 anos que não é a reforma.
  • Já usaste todo o desconto do IRS que o PPR permite e queres continuar a poupar sem ficar preso às regras de resgate.
  • Não queres correr riscos, mas também não queres ter de justificar porque é que precisas do teu dinheiro.
  • Queres deixar dinheiro a alguém que não é filho, pai ou cônjuge.
  • Tens património grande e procuras uma estrutura com mais proteção jurídica e liberdade para escolher onde investir.

Faz menos sentido se:

  • Podes precisar do dinheiro dentro de 5 anos. Aí pagas o mesmo imposto de um depósito e perdes a garantia dos 100.000€.
  • Ainda não aproveitaste o desconto do PPR. Os 20% à entrada são muito difíceis de bater.
  • Aceitas risco e tens muitos anos pela frente. Nesse caso, uma carteira de ETFs numa corretora costuma custar bastante menos, e só pagas imposto quando vendes. Explicamos a comparação no artigo sobre investir em PPR ou ETF.

Resumindo: nem são o produto milagroso que às vezes se vende ao balcão, nem uma armadilha. São uma forma razoável de guardar dinheiro a médio prazo com menos imposto, com uma vantagem real mas pequena face aos depósitos, e com um risco diferente que convém perceberes antes de assinar.

Perguntas frequentes

Seguro de capitalização e unit-linked são a mesma coisa?

Não. O unit-linked é um tipo de seguro de capitalização, aquele em que o dinheiro está ligado a fundos e o risco de mercado é teu. O outro tipo, o mais vendido em Portugal, tem capital garantido e não está ligado a fundos. Usar os dois nomes como se fossem sinónimos é um erro comum.

Posso levantar o dinheiro antes dos 5 anos?

Sim, salvo se o contrato disser o contrário. O que perdes é o imposto mais baixo: pagas 28%. Alguns produtos cobram ainda uma comissão de resgate.

E se a seguradora falir?

Não há fundo de garantia. A seguradora mantém dinheiro reservado para pagar os contratos de seguro e a ASF vigia esse valor. Se não chegasse, não existe nenhuma outra proteção. Nunca aconteceu em Portugal, mas é motivo para não concentrares tudo numa só companhia.

Este dinheiro entra na herança?

Depende do contrato. Se indicaste beneficiários, o dinheiro vai diretamente para eles, sem Imposto do Selo e sem entrar na herança. Se o contrato não permitir indicar beneficiários, ou se não indicares nenhum, o dinheiro entra na herança como qualquer outro bem. Confirma este ponto antes de assinar.

É melhor do que um PPR?

Em imposto, não: o PPR dá desconto à entrada e paga menos à saída. O seguro de capitalização ganha noutra coisa, na liberdade de levantar o dinheiro quando e para o que quiseres, sem devolver benefícios. São mais complementares do que rivais: o PPR até ao limite do desconto anual, o seguro de capitalização para o que sobra e para objetivos que não são a reforma.

Posso ter mais do que um?

Em regra sim, e há vantagem nisso: permite ir levantando por partes e não depender de uma única seguradora. Alguns produtos, no entanto, só deixam ter uma apólice por cliente.

As empresas podem subscrever seguros de capitalização?

Sim. Várias seguradoras têm versões para empresas, usadas sobretudo para aplicar tesouraria a médio prazo. A fiscalidade é diferente: o rendimento entra no lucro tributável em IRC, sem a escada dos 28%, 22,4% e 11,2%, que é uma regra do IRS para particulares.

Antes de assinar, confirma isto

  • Podes indicar beneficiários em caso de morte? Nem todos os contratos permitem.
  • Tem capital garantido ou está ligado a fundos? A garantia vale sempre ou só na data final?
  • Qual é o juro, quem o define e de quanto em quanto tempo muda?
  • Quais são as comissões, todas somadas, e quanto custa a garantia se existir?
  • Quando é que deixa de haver comissão de resgate?
  • O plano de entregas permite cumprir a regra dos 35%?
  • Que seguradora é, e qual é o seu rácio de solvência? Está no relatório de solvência que todas publicam.
  • Leste o Documento de Informação Fundamental?

Podes ver informação independente sobre estes produtos no Portal do Consumidor da ASF.

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento. As condições dos produtos podem mudar e os impostos dependem da situação de cada pessoa. Investe com responsabilidade.

Autor
O Franklin é licenciado em Economia e mestre em Finanças. Concluiu o nível II do CFA e conta com cerca de três anos de experiência em gestão de patrimónios, como analista de carteiras e fundos de investimento na Golden Wealth Management. Criou o canal de YouTube "Edge Over Hedge" sobre literacia financeira. É o nosso Warren Buffett português – embora mais jovem.