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09.06.2026

SpaceX IPO: vale a pena investir? O que precisas de saber

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A SpaceX, a empresa de foguetões de Elon Musk, prepara-se para realizar aquela que pode ser a maior entrada em bolsa (IPO) da história. Para muitos investidores particulares, é tentador querer “entrar” numa empresa tão mediática. Mas, antes de o fazeres, vale a pena perceber o que está realmente em cima da mesa, e o que décadas de investigação financeira nos dizem sobre o retorno de investir em IPOs.

Neste artigo juntamos as duas coisas: a informação concreta sobre o IPO da SpaceX e o enquadramento educativo para tomares uma decisão informada.

O que é o IPO da SpaceX

A SpaceX apresentou de forma confidencial o pedido à SEC (o regulador dos mercados nos EUA) e prepara-se para estrear na Nasdaq sob o símbolo SPCX. Os principais números:

Destaque Detalhes
Empresa SpaceX (Space Exploration Technologies)
Bolsa / Símbolo Nasdaq / SPCX
Data prevista de estreia 12 de junho de 2026 (preço definido após o fecho de 11 de junho)
Preço por ação 135 dólares (preço fixo)
Ações a colocar ~555,6 milhões (com opção para mais ~83 milhões)
Montante a angariar ~75 mil milhões de dólares
Avaliação implícita ~1,75 a 1,77 biliões de dólares

Para teres uma ideia da escala: será a maior IPO de sempre, mais do triplo da Alibaba (2014) e acima da Saudi Aramco (2019), que detinha o recorde anterior. A esta avaliação, a SpaceX valeria mais do que a Tesla.

SpaceX - página principal

A empresa combina negócios já maduros, como o Starlink (internet por satélite), com áreas que ainda queimam muito dinheiro. O prospeto revelou perdas significativas e uma estrutura de capital complexa, incluindo participações cruzadas com a xAI, a empresa de inteligência artificial de Musk.

Recuando um pouco: afinal, o que é um IPO?

IPO significa Initial Public Offering (Oferta Pública Inicial). É o momento em que uma empresa privada vende ações ao público pela primeira vez e passa a estar cotada em bolsa. A empresa angaria capital, e os primeiros investidores (fundadores, capital de risco, trabalhadores) ganham uma forma de vender parte das suas posições.

Se ainda estás a dar os primeiros passos, vê o nosso guia sobre como investir em ações para perceberes, na prática, o que significa ser acionista.

Um detalhe importante: num IPO, o preço de estreia é definido pelos bancos colocadores (underwriters) em conjunto com a empresa, e nem sempre reflete o “valor justo”. É aqui que a história fica interessante.

O que a investigação diz sobre investir em IPOs

Há duas verdades sobre IPOs que parecem contraditórias, mas não são:

  1. No curtíssimo prazo, costumam “disparar”. Em média, as ações de um IPO sobem no primeiro dia de negociação, o chamado underpricing. O problema é que esse ganho vai quase todo para quem consegue comprar ao preço de oferta, tipicamente grandes investidores institucionais, e não o investidor particular.
  2. No longo prazo, tendem a ficar atrás do mercado. Os dados mais recentes de Jay Ritter, da Universidade da Florida, cobrem 9.253 IPOs nos EUA entre 1980 e 2024. Nos três anos após a estreia, estas ações renderam em média 19,1%, enquanto o mercado rendeu 39,6% no mesmo período. A diferença são cerca de 20 pontos percentuais a menos, qualquer coisa como -5,5% ao ano (Ritter, Universidade da Florida).

E não é um caso isolado. Loughran e Ritter (1995) mostraram que, em média, as IPOs ficaram cerca de 7% por ano atrás de ações comparáveis nos cinco anos seguintes à estreia. Uma análise da Nasdaq (com dados até 2019) chega à mesma conclusão: três anos depois, cerca de dois terços das IPOs estavam a perder para o mercado.

Atenção a uma nuance importante: os retornos das IPOs são muito assimétricos. A maioria desilude, mas uma pequena fração tem ganhos enormes (algumas multiplicam várias vezes). O problema é que acertar nessas raras vencedoras à partida é extremamente difícil, e o investidor particular raramente consegue comprar ao preço de oferta.

Por outras palavras: o entusiasmo à volta de um IPO não é, por si só, um bom motivo para investir.

Análise em vídeo ao IPO da SpaceX

O caso específico da SpaceX: o que olhar com atenção

Há pontos que merecem análise atenta:

  • Avaliação muito exigente. A cerca de 1,75 biliões de dólares, a SpaceX negociaria a aproximadamente 90 vezes as receitas e continuaria a dar prejuízo no conjunto (o Starlink já é rentável, mas áreas como a IA queimam muito dinheiro). Para “justificar” o preço, precisaria de crescer a um ritmo que praticamente nenhuma empresa atingiu.
  • O que diz quem analisa profissionalmente. Ao iniciar a cobertura da SpaceX, a Morningstar estimou um valor justo de cerca de 780 mil milhões de dólares (aproximadamente 55% abaixo do preço pedido no IPO) e considerou que faria mais sentido esperar por preços mais atrativos depois da estreia.
  • Contexto de mercado. A estreia acontece num momento de receios de uma possível “bolha” tecnológica e de IA, com vários analistas a comparar o ambiente atual com 1999-2000. Quando o sentimento é eufórico, os preços de estreia tendem a ser mais altos, exatamente o cenário que a investigação associa a pior desempenho futuro.
  • Poder de voto desequilibrado. A estrutura de ações com classes diferentes (umas com 10x mais direito de voto) significa que, na prática, o controlo continua concentrado. Como pequeno acionista, terias pouca influência.
  • Negócios em fases diferentes. O Starlink dá alguma previsibilidade, mas outras áreas ainda consomem muito capital. Perceber para onde vai o dinheiro é essencial.

Nada disto significa que a SpaceX seja um “mau negócio”. Significa que o preço a que entras importa muito, e que o preço de estreia já incorpora muito otimismo.

Um investidor português pode comprar ações da SpaceX?

Até há pouco tempo, comprar ao preço de oferta do IPO era, para a generalidade dos particulares, difícil: essas ações iam sobretudo para investidores institucionais. O mais comum era só conseguires comprar depois da estreia, no mercado secundário.

Isso começou a mudar. A Trade Republic anunciou o IPO Access, uma funcionalidade que permite a investidores particulares europeus subscrever IPOs selecionados diretamente na app, ao preço oficial de oferta e antes do primeiro dia de negociação e a SpaceX é precisamente o primeiro IPO disponível através desta funcionalidade. Funciona assim:

  1. Subscreves na app durante o período de recolha de ordens.
  2. Se a procura for elevada, a alocação é feita de forma proporcional ao volume subscrito por cada cliente (pro rata), ou seja, podes receber apenas parte da ordem.
  3. A alocação acontece ao preço oficial de oferta, o mesmo que os institucionais pagam.
  4. O custo é a taxa de liquidação de 1€ por ordem; fundos não alocados são devolvidos automaticamente à conta.

Em alternativa, qualquer corretora com acesso a ações dos EUA permite comprar depois da estreia, no mercado secundário. E lembra-te: comprar no primeiro dia significa, muitas vezes, pagar um preço já inflacionado pela euforia.

Outra alternativa que muitos investidores preferem é obter exposição diversificada através de ETFs que seguem o mercado como um todo, em vez de apostar numa única empresa numa única estreia. Qual a melhor opção para ti depende dos teus objetivos e tolerância ao risco e, idealmente, de uma estratégia que já tenhas definido.

Então, vale a pena?

O IPO da SpaceX está a atrair muita atenção. Mas “evento mediático” e “bom investimento” não são a mesma coisa. A história mostra que a maioria das IPOs fica atrás do mercado no longo prazo, que o ganho do primeiro dia raramente chega ao investidor particular, e que estreias em ambientes eufóricos tendem a correr pior.

Se decidires investir, fá-lo com uma quantia que estejas disposto a arriscar, depois de perceberes o negócio e a avaliação, e não apenas porque “é a SpaceX”.

Aviso: Este artigo tem fins meramente informativos e educativos e não constitui aconselhamento financeiro. O autor não é consultor financeiro autorizado. Investir comporta riscos, incluindo a perda do capital investido. Faz sempre a tua própria pesquisa.

Autor
O Franklin é licenciado em Economia e mestre em Finanças. Concluiu o nível II do CFA e conta com cerca de três anos de experiência em gestão de patrimónios, como analista de carteiras e fundos de investimento na Golden Wealth Management. Criou o canal de YouTube "Edge Over Hedge" sobre literacia financeira. É o nosso Warren Buffett português – embora mais jovem.