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02.10.2026

O que é e como investir num fundo do mercado monetário?

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Existem várias formas de rentabilizar o teu dinheiro através de investimentos com baixo risco. Os fundos do mercado monetário são uma dessas formas. Corretoras como a Interactive Brokers, Trading 212 ou a Lightyear, utilizam estes instrumentos para te oferecer os juros publicitados. Por que não investires tu diretamente neles?

Neste artigo, explicamos-te de forma simples o que são fundos do mercado monetário, quais os seus riscos, que ETFs monetários existem (como o XEON e o CSH2) e como funcionam os Fundos Monetários Flexíveis da Revolut.

O que é um fundo do mercado monetário?

Um fundo do mercado monetário (em inglês: money market fund) é um tipo de investimento que aplica o dinheiro dos investidores em ativos de baixo risco e curto prazo (inferior a 1 ano), como dívida pública (emitida por governos) ou obrigações de empresas sólidas.

Pensa nos fundos do mercado monetário como uma solução de investimento para gestão de liquidez e que, ao mesmo tempo, te permite diversificar a carteira.

Para que servem?

Apesar de não terem garantia de capital (estão sujeitos às flutuações do mercado), costumam ser usados por quem quer manter o dinheiro num sítio relativamente seguro enquanto não decide onde investir a longo prazo e também por quem apenas pretender guardar a liquidez (ou seja, dinheiro facilmente disponível) numa carteira de investimentos.

Em resumo:

  • São seguros? Relativamente mais seguros do que ações, por exemplo, mas não isentos de risco.
  • Rentáveis? Pouco, mas melhores do que deixar o dinheiro parado na conta à ordem.
  • Flexíveis? Sim, permite-te vender a tua posição com relativa facilidade.

Como funcionam?

Quando investes num fundo do mercado monetário, o teu dinheiro é usado para comprar:

  • Dívida pública de curto prazo (como títulos do governo com maturidade inferior a 1 ano)
  • Obrigações de empresas com boa classificação de risco (rating elevado)
  • Depósitos interbancários (dinheiro emprestado entre bancos)

O objetivo destes fundos é preservar o valor do capital e ainda gerar algum rendimento.

Tipos de fundos do mercado monetário

Podes encontrar este tipo de fundos sob duas estruturas de investimentos. Os dois mais comuns são:

  • ETFs (Exchange Traded Funds): São fundos que se compram e vendem na bolsa como se fossem ações. Têm custos baixos e são muito práticos.
  • Fundos de investimento tradicionais: Funcionam de forma parecida aos ETFs, mas apenas podem ser transacionados uma vez por dia.

Quais são os riscos?

Mesmo sendo considerados seguros, estes fundos têm alguns riscos:

  • Risco de taxa de juro: Se as taxas de juro subirem, o valor dos ativos do fundo pode descer (o risco é baixo porque apenas tem obrigações com baixas maturidades, mas continua lá);
  • Risco de crédito: Há uma pequena possibilidade de que um emissor (ex: uma empresa ou governo) não pague a sua dívida.

Quanto rendem atualmente?

A rentabilidade de um fundo do mercado monetário em euros acompanha de perto as taxas de juro de curto prazo definidas pelo Banco Central Europeu (BCE). Na prática, o rendimento segue o €STR (a taxa overnight de referência da Zona Euro), que anda muito próximo da taxa de depósito do BCE.

Em setembro de 2026, o BCE voltou a subir a taxa de depósito, de 2,25% para 2,50%, com efeitos a partir de 16 de setembro. Foi a segunda subida do ano, depois da de junho. Isto significa que, neste momento, um FMM em euros tende a render perto de 2,50% ao ano, antes de custos e impostos. Quando o BCE corta as taxas, o rendimento destes fundos desce quase de imediato. Quando sobe, acontece o contrário.

Exemplos reais

Aqui ficam dois exemplos concretos de fundos do mercado monetário disponíveis para pequenos investidores:

1. Amundi Euro Government Bond 0-6 M UCITS ETF Acc (C3M)

  • Código ISIN: FR0010754200
  • Investe em dívida pública de países da Zona Euro com vencimento inferior a 6 meses.
  • É um ETF: pode ser comprado na bolsa como uma ação.
  • Muito usado para preservar capital com risco mínimo.
  • Baixo custo (0,14%) e acesso fácil através de várias corretoras.

A sua evolução tem sido a esperada para um fundo deste tipo:

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Ficha comercial do ETF da Amundi

Agora, tu perguntas: “Por que baixou entre 2015 e final de 2022?”. A resposta está ligada com as taxas de juro. Esse foi o período em que as taxas de juros estavam negativas. Ora, como o fundo, pelo seu mandato, é obrigado a investir em dívidas de boa qualidade, esses instrumentos estavam a oferecer rentabilidades negativas e isso refletiu-se nesse fundo.

À medida que o Banco Central Europeu (BCE) foi aumentando as taxas de juro, a evolução desse ETF tornou-se positiva. Por outras palavras, se voltássemos a um regime de taxas de juro próximas de zero ou até mesmo negativas, o melhor para ti seria ter o dinheiro parado na tua conta bancária.

2. BlackRock ICS Euro Liquidity Fund

  • Código ISIN: IE00B3L10570
  • É um fundo de investimento: só pode ser transacionado uma vez por dia.
  • Investe em dívida de empresas e governos com excelente classificação de crédito.
  • Disponível na corretora Interactive Brokers, mas exige um investimento mínimo de 10.000€.
  • Muito usado por investidores e empresas para gerir liquidez com segurança.

A sua evolução tem sido a esperada para um fundo deste tipo (a justificação para as rentabilidades negativas entre 2015 e 2022 é a mesma apresentada no ETF anterior):

__wf_reserved_inherit
Ficha comercial do fundo da BlackRock

ETFs monetários disponíveis em Portugal

Os dois exemplos acima não são os únicos. Há vários ETFs em euros que servem para estacionar liquidez e que podes comprar numa corretora com acesso à Xetra ou à Euronext Paris. Estes são seis dos mais usados, com o custo anual de cada um (TER, Total Expense Ratio):

ETF TER Nome Em que investe Replicação Rendimento
XEON 0,10% Xtrackers EUR Overnight Rate Swap €STR (taxa overnight do euro) Sintética Acumulação
CSH2 0,10% Amundi Smart Overnight Return €STR (taxa overnight do euro) Sintética Acumulação
PRAB 0,05% Amundi Prime Euro Gov Bond 0-1Y Dívida pública da Zona Euro até 1 ano Física Acumulação
C3M 0,14% Amundi Euro Gov Bond 0-6M Dívida pública da Zona Euro até 6 meses Física Acumulação
ERNX 0,09% iShares EUR Ultrashort Bond Obrigações de empresas de curto prazo Física Acumulação
PJSR 0,19% PIMCO Euro Short Maturity Obrigações até 1 ano, gestão ativa Física Acumulação

Fonte: justETF, consultado a 2 de outubro de 2026.

ETFs overnight (XEON e CSH2): replicam o €STR, a taxa a que os bancos da Zona Euro emprestam dinheiro entre si de um dia para o outro (no caso do XEON, o índice soma 0,085 pontos percentuais ao €STR). Fazem-no através de um swap, ou seja, um contrato com bancos que lhes paga essa taxa. No XEON, essas contrapartes incluem o Barclays, o Deutsche Bank e o Goldman Sachs. O XEON (ISIN LU0290358497) tem cerca de 23 mil milhões de euros sob gestão e uma volatilidade a 1 ano de 0,08%. O CSH2 (ISIN LU1190417599) segue o mesmo princípio, com o mesmo custo.

ETFs de dívida pública (PRAB e C3M): compram bilhetes do Tesouro e obrigações de governos da Zona Euro com vencimento curto, sem recorrer a swaps. O PRAB é o mais barato da lista (0,05%) e investe em títulos até 1 ano. O C3M fica pelos 6 meses.

ETFs de obrigações de curto prazo (ERNX e PJSR): não são fundos monetários em sentido estrito. Compram obrigações de empresas (e, no caso do PJSR, também de governos) com prazos um pouco mais longos. Por isso podem render mais: a 22 de setembro de 2026, a rendibilidade até ao vencimento do ERNX era de 3,10%, segundo a BlackRock. Em contrapartida, o valor oscila mais. A volatilidade a 1 ano do ERNX é de 0,78%, perto de dez vezes a do XEON. O PJSR é gerido ativamente pela PIMCO, o que explica o custo mais alto.

Há ainda ETFs de obrigações de taxa variável, como o EFRN (iShares) ou o FRNE (Amundi). Aqui já falamos de obrigações de empresas com prazos mais longos, mais longe do perfil de um fundo monetário.

Fundo do mercado monetário vs. Depósito a prazo

Tanto os depósitos a prazo como os fundos do mercado monetário servem para guardar dinheiro com baixo risco. Mas funcionam de formas diferentes e têm características próprias.

Caraterística Depósito a prazo Fundo do Mercado Monetário (MMF)
Diversificação Exposição a um único banco (maior risco concentrado). Investimento em vários emissores (mais diversificação).
Liquidez Penalizações se levantares o dinheiro antes do prazo. Liquidez diária ou no dia seguinte, sem período de bloqueio.
Rentabilidade (Yield) Fixo (acordado à partida). Taxas definidas pelo banco – podem ser pouco competitivas ou variar bastante. Variável (pode subir ou descer). Gestão ativa permite ajustar a carteira às condições do mercado (mas sem garantia).
Segurança do Capital ✅ Garantia até 100.000€ por conta, via Fundo de Garantia de Depósitos. ❌ Sem garantia de capital – o valor pode oscilar.
Risco Baixo, mas existe Baixo, mas sem garantia de capital
Custos e Comissões Não apresentam custos diretos Custos estão incluídos no produto – recebes o rendimento já líquido de comissões.

Fundo do mercado monetário vs. Certificados de Aforro

Em Portugal, o concorrente mais direto de um FMM para quem quer baixo risco são os Certificados de Aforro. As principais diferenças:

  • Garantia: os Certificados de Aforro são uma dívida do Estado português, sem risco de mercado relevante; um FMM não tem garantia de capital, embora o risco seja muito baixo.
  • Liquidez: os Certificados de Aforro só permitem resgate após 3 meses; um FMM costuma ter liquidez diária.
  • Rentabilidade: os Certificados de Aforro seguem uma taxa indexada à Euribor a 3 meses, com prémios de permanência; um FMM segue o €STR/taxa do BCE.
  • Acesso: os Certificados de Aforro subscrevem-se nos CTT ou no Espaço Cliente do IGCP; um FMM compra-se através de uma corretora.

Para a maioria dos pequenos aforradores, os Certificados de Aforro continuam a ser uma opção muito competitiva. Um FMM ganha relevância sobretudo para quem já investe através de uma corretora e quer gerir a liquidez no mesmo sítio.

Juros oferecidos por corretoras e bancos digitais

Muitas corretoras e bancos digitais já oferecem taxas de juro altas sobre o teu dinheiro.

Estas taxas de juro são normalmente obtidas através de uma mistura de Fundos do Mercado Monetário e depósitos bancários.

Alguns exemplos onde podes verificar isso na prática são a Trading 212 (imagem abaixo), a Revolut, ou a Lightyear:

Screenshot da minha conta pessoal

Fundos Monetários Flexíveis da Revolut

Os Fundos Monetários Flexíveis da Revolut são a forma mais simples de investir num FMM sem abrir conta numa corretora. Quando colocas lá dinheiro, a Revolut compra por ti unidades de participação do Euro Fund do Fidelity Institutional Liquidity Fund (ISIN IE000AZVL3K0), um fundo monetário gerido pela Fidelity.

O rendimento é calculado diariamente, mas a Revolut cobra uma comissão anual que depende do plano. A tabela mostra o RPA (Rendimento Percentual Anual, já líquido dessa comissão) em euros a 12 de maio de 2026, os últimos valores publicados pela Revolut:

Plano RPA Comissão
Standard 1,25% 0,90%
Plus 1,40% 0,75%
Premium 1,85% 0,30%
Metal 2,00% 0,15%
Ultra 2,10% 0,05%

Fonte: Revolut, Fundos Monetários Flexíveis (EUR), valores a 12 de maio de 2026.

Estes valores são de maio, quando a taxa de depósito do BCE estava em 2,00%. Com as subidas de junho e setembro, o rendimento atual deverá ser mais alto. A comissão de cada plano mantém-se.

A comissão faz diferença. Com 10.000€ aplicados durante um ano, a comissão do plano Standard custa-te 90€, contra 10€ de TER num ETF como o XEON ou o CSH2. No ETF tens ainda de somar as comissões de compra e venda da corretora que usares.

Há outros pontos a ter em conta. As unidades do fundo não podem ser transferidas para outra entidade. O dinheiro de um levantamento pode demorar até 2 dias úteis a chegar à conta. A proteção de 22.000€ do sistema lituano de indemnização aos investidores cobre a falência da Revolut Securities Europe UAB, mas não as perdas do próprio fundo.

Como são tributados os fundos do mercado monetário em Portugal?

Esta é a parte que muitos investidores esquecem - e que faz diferença no rendimento final. Em Portugal, os ganhos de um fundo do mercado monetário são tributados como qualquer outro investimento em fundos ou ETFs:

  • ETFs/fundos de acumulação: não há imposto enquanto não venderes. Só pagas quando resgatas, sobre a mais-valia realizada, à taxa de 28%. É o equivalente a "adiar" o imposto.
  • Fundos de distribuição: os rendimentos pagos periodicamente são tributados a 28% (categoria E) no momento em que os recebes.

Onde declarar depende da corretora:

  • Corretora estrangeira (a maioria - Interactive Brokers, Trading 212, etc.): és tu o responsável por declarar as mais-valias no Anexo J da tua declaração de IRS.
  • Corretora com sucursal em Portugal (como a XTB): pode fazer a retenção dos 28% automaticamente, simplificando o processo.

Podes sempre optar pelo englobamento, que pode compensar se tiveres um escalão de IRS baixo. Para o detalhe de quadros e códigos, vê o nosso guia de como declarar investimentos no IRS e, no caso específico de juros de saldo, o artigo Revolut e IRS.

Vale a pena investir num fundo monetário?

Para estacionar dinheiro com liquidez diária, sim, desde que aceites que não há garantia de capital. Com a taxa de depósito do BCE em 2,50%, um ETF monetário como o XEON ou o CSH2 rende perto desse valor, menos 0,10% de custos. Os Fundos Monetários Flexíveis da Revolut são mais simples de usar, mas no plano gratuito a comissão de 0,90% leva uma boa parte do rendimento.

Se as taxas do BCE voltarem a descer para perto de zero, o rendimento destes fundos desce com elas. Nesse cenário, um depósito a prazo ou os Certificados de Aforro podem compensar mais.

Nota: este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento fiscal. Em caso de dúvida, consulta um contabilista.

Perguntas frequentes

Os fundos do mercado monetário têm garantia de capital?

Não. Ao contrário de um depósito a prazo (coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100.000€), um FMM não tem garantia de capital. Ainda assim, é dos investimentos de mercado com menor risco, por investir em dívida de curto prazo e de elevada qualidade.

Qual a diferença entre um FMM e uma conta poupança?

Uma conta poupança é um produto bancário com uma taxa definida pelo banco; um FMM é um fundo que investe em vários instrumentos de curto prazo e cuja rentabilidade varia com o mercado. O FMM tende a oferecer mais diversificação, mas sem garantia de capital.

Qual a diferença entre o XEON e o CSH2?

Ambos seguem o €STR através de um swap, estão domiciliados no Luxemburgo e custam 0,10% ao ano. O XEON é da Xtrackers (DWS), negoceia sobretudo na Xetra e é o maior dos dois, com cerca de 23 mil milhões de euros contra cerca de 7 mil milhões do CSH2. O CSH2 é da Amundi e negoceia sobretudo na Euronext Paris. Na prática, o rendimento dos dois é muito parecido.

Os Fundos Monetários Flexíveis da Revolut são um depósito?

Não. São um investimento num fundo da Fidelity, sem garantia de capital e sem cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos. O produto de depósito da Revolut é outro, a Poupança de Acesso Imediato.

Os FMM pagam juros mensais?

Depende da estrutura. Os fundos de acumulação não distribuem nada - o rendimento reflete-se no valor da unidade de participação. Os de distribuição pagam periodicamente. A maioria dos investidores em Portugal usa versões de acumulação por eficiência fiscal.

Posso perder dinheiro num FMM?

É possível, embora pouco provável em condições normais. O valor pode oscilar ligeiramente, sobretudo em momentos de stress nos mercados de crédito ou de subidas rápidas das taxas. Para a maioria dos cenários, o risco é muito baixo.

Autor
O Franklin é licenciado em Economia e mestre em Finanças. Concluiu o nível II do CFA e conta com cerca de três anos de experiência em gestão de patrimónios, como analista de carteiras e fundos de investimento na Golden Wealth Management. Criou o canal de YouTube "Edge Over Hedge" sobre literacia financeira. É o nosso Warren Buffett português – embora mais jovem.