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24/09/2026

Taxa de esforço máxima do Banco de Portugal: DSTI, LTV e limites em 2026

Taxa de esforço máxima do Banco de Portugal: DSTI, LTV e limites em 2026
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Desde 1 de agosto de 2026, a taxa de esforço máxima recomendada pelo Banco de Portugal desceu de 50% para 45%. Parecem cinco pontos, mas na prática tiram quase 19.000€ de capital a quem ganha 2.000€ líquidos.

Há algo pouco abordado: a taxa de esforço que o banco calcula não é a que tu calculas em casa. O banco aplica dois choques antes de fazer a divisão e é por isso que muita gente com contas certas leva um não.

Este artigo mostra a fórmula que o banco usa, os valores exatos dos choques e quanto podes pedir com o teu rendimento.

O que é o DSTI

DSTI quer dizer debt service-to-income, ou seja, o peso das prestações no rendimento. É o nome técnico da taxa de esforço.

Divide-se o total das prestações mensais de todos os créditos pelo rendimento mensal líquido. Com 2.000€ líquidos e 700€ de prestações, a taxa de esforço é de 35%.

Simples, se fosse assim que o banco fizesse a conta.

A conta que o banco faz mesmo

O Banco de Portugal obriga os bancos a calcular o DSTI com dois agravamentos, definidos na Recomendação Macroprudencial n.º 1/2026.

1. Um choque na taxa de juro: a prestação do novo crédito é calculada com uma taxa mais alta do que a contratada, para testar se aguentas uma subida. Os valores estão fixados por prazo:

Prazo do créditoChoque na taxa de juro
Até 5 anos0,5 pontos percentuais
Mais de 5 e até 10 anos1 ponto percentual
Mais de 10 anos1,5 pontos percentuais

Como quase todos os créditos habitação passam dos 10 anos, o choque que te vai ser aplicado é de 1,5 pontos. Aplica-se aos créditos a taxa variável e, nos de taxa mista, à fase variável, depois de acabar o período fixo. Estes valores estão em vigor desde outubro de 2023, quando o Banco de Portugal os reduziu para metade dos anteriores.

2. Uma redução do rendimento depois dos 70 anos: se acabares o contrato com mais de 70 anos, o banco tem de assumir um rendimento mais baixo nessa fase, com uma quebra de 20%. Não se aplica se já estiveres reformado quando pedes o crédito. Em contrapartida, nestes contratos o choque na taxa de juro desce para 0,75 pontos, seja qual for o prazo. As duas regras andam juntas: quem termina o crédito depois dos 70 leva um corte maior no rendimento e um agravamento menor na prestação.

Além disto, contam todos os teus créditos, não só o da casa: automóvel, pessoal, cartões de crédito e créditos de que sejas fiador. O banco consulta-os no mapa de responsabilidades de crédito, que tu também podes pedir.

Exemplo passo a passo

Crédito de 150.000€ a 30 anos, TAN de 3,5%, sem outros créditos.

  • Prestação real: 674€ por mês.
  • Prestação com choque: a taxa passa a 5,0% e a prestação a considerar sobe para 805€.
  • Rendimento mínimo: 805€ dividido por 45% dá 1.789€ líquidos.

Ou seja, precisas de cerca de 1.800€ líquidos para um crédito cuja prestação real é de 674€. A diferença entre estes dois números é o que apanha as pessoas de surpresa.

Agora acrescenta um crédito automóvel de 250€. O total passa a 1.055€ e o rendimento necessário sobe para 2.345€. Um crédito pequeno pode custar-te mais de 46.000€ de capital na casa.

Faz a tua conta na calculadora de taxa de esforço.

Quanto podes pedir com o teu rendimento

Crédito a 30 anos, TAN de 3,5%, sem outros créditos, com o limite de 45% e o choque de 1,5 pontos:

Rendimento líquidoPrestação máxima com choqueCapital máximoPrestação real
1.500€675€125.700€565€
2.000€900€167.700€753€
2.500€1.125€209.600€941€
3.000€1.350€251.500€1.129€
4.000€1.800€335.300€1.506€

Com o limite anterior de 50%, quem ganhava 2.000€ conseguia cerca de 186.300€. Passou para 167.700€. São 18.600€ a menos de capacidade de compra, com o mesmo salário.

Estes valores são o teto teórico. O banco pode ser mais exigente e vai olhar também para a estabilidade do emprego, o valor da entrada e o histórico de crédito.

LTV: o outro limite

O LTV (loan-to-value) é o rácio entre o empréstimo e o valor da casa. Os limites mantiveram-se em 2026:

FinalidadeFinanciamento máximo
Habitação própria e permanente90%
Outras finalidades80%
Imóveis detidos pelos próprios bancos90%, tal como os restantes

Duas notas importantes. O rácio calcula-se sobre o menor entre o preço de compra e o valor da avaliação. E a exceção que permitia financiar a 100% os imóveis dos próprios bancos acabou em agosto de 2026, o que significa que também aí passas a precisar de 10% de entrada.

A única forma de financiar 100% em 2026 é com a garantia pública do Estado para jovens até aos 35 anos, explicada no artigo do crédito habitação jovem.

As exceções: 10% dos créditos

O limite de 45% não é absoluto. Cada banco pode conceder até 10% do montante total de crédito de cada semestre acima desse limite.

Na prática, é uma almofada pequena e disputada. Os dados do Banco de Portugal mostram que as exceções vão sobretudo para clientes de rendimento mais alto, onde sobra dinheiro depois de pagar as prestações. Se o teu rendimento é médio, não contes com ela.

Um número que dá a dimensão da mudança: em 2025, cerca de 18% dos novos contratos tinham uma taxa de esforço entre 45% e 50%. Todos esses créditos, hoje, precisariam de caber nas exceções. O relatório de acompanhamento das medidas macroprudenciais do Banco de Portugal publica estes números todos os anos.

Isto é lei ou recomendação?

É uma recomendação, não uma lei. Funciona pelo princípio de cumprir ou explicar: os bancos seguem os limites ou justificam ao Banco de Portugal porque se afastaram deles.

Duas consequências práticas. Nenhum banco é obrigado a emprestar-te só porque cumpres os limites e muitos aplicam critérios internos mais apertados do que os recomendados. E, do outro lado, o facto de seres exceção não é ilegal, é apenas raro.

O Banco de Portugal explica as regras em linguagem simples no Portal do Cliente Bancário e o comunicado da revisão de 2026 resume o que mudou.

O que mudou em agosto de 2026

RegraAntesDesde 1 de agosto de 2026
Taxa de esforço máxima50%45%
Exceções ao limiteEscalões por percentagem10% do montante, por semestre
Prazo máximo40, 37 ou 35 anos por escalão de idade40 anos até aos 35, 35 acima
Maturidade média da carteira30 anosEliminada
Imóveis dos bancosAté 100% de financiamentoLimite geral de 90%

O choque na taxa de juro manteve-se nos valores em vigor desde outubro de 2023. As novas regras aplicam-se às avaliações de solvabilidade feitas a partir de 1 de agosto, não à data da escritura.

Como baixar a tua taxa de esforço

  • Liquida os créditos pequenos antes de pedir: um crédito automóvel de 250€ tira-te mais de 46.000€ de capacidade. Se o conseguires liquidar, o efeito é imediato.
  • Cancela cartões de crédito que não usas: o plafond disponível pode ser considerado na análise.
  • Aumenta a entrada: menos capital financiado significa prestação menor e taxa de esforço mais baixa.
  • Junta um segundo titular: somam-se os rendimentos, mas somam-se também os créditos dele.
  • Escolhe taxa fixa se estiveres no limite: na taxa fixa não há choque de juros a aplicar, porque a prestação não muda. Compara na mesma o custo total, com a ajuda do artigo sobre taxa fixa, variável ou mista.
  • Alonga o prazo, com contas: baixa a prestação e a taxa de esforço, mas aumenta os juros. Vê os limites no artigo sobre prazo e idade máxima.

Erros a evitar

  • Calcular a taxa de esforço sem o choque: dá sempre um valor mais baixo do que o do banco e leva a procurar casas fora do teu alcance.
  • Esquecer os créditos dos quais és fiador: contam como teus e aparecem no mapa de responsabilidades.
  • Contar com o rendimento bruto: a conta faz-se com o líquido, depois de impostos e Segurança Social.
  • Assumir que 45% é o teu objetivo: é o teto recomendado, não uma meta. Acima dos 35% o orçamento fica sem folga para imprevistos.
  • Contar com a exceção dos 10%: é pouca e vai sobretudo para rendimentos altos.

Perguntas frequentes

Qual é a taxa de esforço máxima em 2026?

45% do rendimento mensal líquido, calculada com um choque na taxa de juro e, quando aplicável, com uma redução do rendimento a partir dos 70 anos.

O que é o choque na taxa de juro?

É um agravamento que o banco tem de somar à taxa do contrato para testar a tua capacidade de pagar: 0,5 pontos até 5 anos, 1 ponto entre 5 e 10, e 1,5 pontos acima de 10 anos. Desce para 0,75 pontos nos contratos que terminam depois de o mutuário fazer 70 anos.

A minha taxa de esforço dá 38%, porque é que o banco recusou?

Provavelmente porque a conta do banco inclui o choque de juros, todos os teus créditos e o rendimento líquido, não o bruto. Refaz a conta com a taxa do contrato mais 1,5 pontos.

O banco pode aprovar acima dos 45%?

Pode, dentro do limite de 10% do montante de crédito que concede em cada semestre. Não é um direito e é usado sobretudo em rendimentos elevados.

A taxa de esforço aplica-se ao crédito ao consumo?

Sim. A recomendação abrange o crédito à habitação, o crédito com garantia hipotecária e o crédito ao consumo.

Quanto é uma taxa de esforço saudável?

Abaixo dos 35% é o que a maioria dos especialistas considera confortável. Entre 35% e 45% é possível, mas deixa pouca folga para uma subida de juros ou uma despesa inesperada.

As regras aplicam-se ao meu crédito antigo?

Não. Aplicam-se às avaliações de solvabilidade feitas a partir de 1 de agosto de 2026, ou seja, a novos contratos.

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Os limites indicados são recomendações do Banco de Portugal e cada banco pode aplicar critérios próprios. Confirma sempre as condições com o teu banco.

Autor
O Franklin é licenciado em Economia e mestre em Finanças. Concluiu o nível II do CFA e conta com cerca de três anos de experiência em gestão de patrimónios, como analista de carteiras e fundos de investimento na Golden Wealth Management. Criou o canal de YouTube "Edge Over Hedge" sobre literacia financeira. É o nosso Warren Buffett português – embora mais jovem.