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01.09.2026

Análise à Hive5 em Portugal, plataforma de P2P lending

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Depois da Mintos, da Goparity, da Scramble e da Maclear, há uma nova plataforma de investimento em empréstimos a ser promovida junto dos investidores portugueses: a Hive5, com juros nominais médios anunciados de 14,4% ao ano. Antes de olhar para a rentabilidade, há uma pergunta que deve vir primeiro: quem está do outro lado e com que enquadramento legal?

Nesta análise fomos ler o User Agreement da plataforma, os comunicados oficiais, as contas anuais depositadas nos registos públicos da Croácia e da Lituânia e as investigações de analistas independentes (devidamente identificadas como tal). Todos os números e citações têm fonte e refletem a informação disponível a 28 de agosto de 2026.

Se estás a comparar este tipo de plataformas, vê também as nossas melhores plataformas de P2P lending.

Vale a pena investir na Hive5?

A resposta curta: os juros de 13% a 15% são dos mais altos do mercado europeu de P2P, mas vêm acompanhados de uma combinação de factos que deves conhecer antes de decidir:

  • A Hive5 não tem qualquer licença financeira nem supervisor, por posição assumida da própria empresa
  • Não há fundo de garantia nem sistema de indemnização aos investidores e os litígios são resolvidos em tribunais croatas
  • A plataforma e os loan originators pertencem ao mesmo grupo (Hive Finance): a recompra prometida em caso de atraso é assumida por empresas irmãs
  • Nas contas depositadas nos registos públicos, a operadora croata e a empresa-mãe lituana apresentam capitais próprios negativos
  • Investigações independentes documentaram ligações familiares e de software a uma plataforma P2P croata declarada insolvente em 2023 e analistas que antes recomendavam a Hive5 retiraram a recomendação
  • Do lado positivo: sem comissões à data desta análise, mínimo de 10€ e levantamentos reportados como rápidos

Nas secções seguintes documentamos cada um destes pontos.

O que é a Hive5?

A Hive5 é uma plataforma online que se descreve como um marketplace de direitos de crédito sobre empréstimos já emitidos. Na prática, não emprestas dinheiro diretamente a ninguém: compras a uma empresa de crédito (o loan originator) o direito de receber os pagamentos de empréstimos que essa empresa já concedeu aos seus clientes.

A plataforma é operada pela Hive5 marketplace d.o.o. (d.o.o. é a forma croata de sociedade por quotas), registada na Croácia com o n.º 081441259 e sede em Zagreb. A empresa-mãe é a Hive finance, UAB (UAB é o equivalente lituano), com sede em Vilnius, na Lituânia.

Página inicial da Hive5 com juros médios de 14,4% e 218 milhões de euros investidos
Página inicial da Hive5 (hive5.com), sem versão em português

Segundo a atualização de julho de 2026 publicada pela própria plataforma, a Hive5 tinha financiado 218 milhões de euros desde o lançamento em julho de 2022, pago 5,9 milhões de euros em juros a investidores e contava com 30.002 investidores registados. Um mercado secundário (para vender investimentos antes da maturidade) está anunciado para setembro de 2026.

Como funciona na prática

  • Abres conta e depositas por transferência (o mínimo do primeiro investimento é de 10€, cláusula 4.5 do User Agreement)
  • O dinheiro fica numa conta virtual, que não rende juros enquanto não estiver investido (cláusula 4.11)
  • Manualmente ou por auto-invest, compras direitos de crédito (claim rights) sobre empréstimos concedidos pelos loan originators, com prazos e taxas definidos por empréstimo
  • Recebes capital e juros à medida que os empréstimos são pagos. Até ao lançamento do mercado secundário, não existe forma de sair antes do vencimento.

A recompra aos 60 dias (buyback)

O elemento central do modelo é o buyback, ou seja, a obrigação de recompra. Funciona assim: se o mutuário atrasar os pagamentos por mais de 60 dias, o loan originator (a empresa que emprestou o dinheiro e que te vendeu os direitos de crédito) é obrigado a comprar de volta o teu investimento. Na Hive5, estes originators não são empresas independentes: são a FinJet, a Credilink e a Firmeo, todas do mesmo grupo da plataforma, como veremos mais à frente. O contrato permite ainda ao originator prolongar o prazo do empréstimo sem a tua autorização e, nesse caso, a recompra mantém-se (cláusulas 7.7 e 7.9 do User Agreement).

Estatísticas da Hive5 com a afirmação de zero investimentos em atraso a 30 de junho de 2026
Estatísticas publicadas pela Hive5, incluindo a afirmação de zero investimentos em atraso (hive5.com)

Este mecanismo explica um dado que a plataforma destaca no site: a 30 de junho de 2026, a Hive5 não registava investimentos em atraso. É importante perceber que este resultado é uma consequência mecânica do modelo e não um indicador da qualidade da carteira de crédito: enquanto os originators honrarem a recompra, nunca haverá atrasos visíveis para o investidor, independentemente de quantos mutuários finais estejam em incumprimento.

O que o investidor está verdadeiramente a avaliar não é a carteira de empréstimos, mas a capacidade financeira de quem promete a recompra. E é aí que as secções seguintes se tornam relevantes.

Regulação: quem supervisiona a Hive5? Ninguém

A Hive5 não é supervisionada pela CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), nem pelo Banco de Portugal, nem pela HANFA (o supervisor financeiro croata), nem por qualquer outra autoridade. Não é preciso investigar muito para o confirmar: está escrito no rodapé do próprio site, onde a empresa declara que a Hive5 não está regulada ao abrigo de qualquer licença de serviços financeiros («Hive5 is not regulated under any financial services license»).

Em julho de 2026, a plataforma publicou um comunicado de transparência onde explica a sua posição legal: com base na avaliação jurídica da própria empresa, a atividade não exigiria autorização como prestador de serviços de crowdfunding ECSP (European Crowdfunding Service Provider, o regime europeu de licenciamento destas plataformas), nem como empresa de investimento MiFID, instituição de pagamento ou instituição de moeda eletrónica.

O argumento é que a Hive5 não empresta a mutuários, não angaria fundos para projetos nem presta aconselhamento: apenas intermedeia a venda de direitos de crédito já existentes. Pode ser uma tese juridicamente defensável, mas o resultado prático para ti é o mesmo:

  • Não existe nenhum fundo de garantia de depósitos (isso é exclusivo dos bancos)
  • Não existe nenhum sistema de indemnização aos investidores, como o que protege clientes de corretoras reguladas na UE até 20.000€ (Diretiva 97/9/CE)
  • Não existe um regulador junto do qual possas reclamar se algo correr mal
  • Não existem requisitos prudenciais de capital, auditorias obrigatórias de conduta, nem testes de adequação do produto ao investidor
  • Em caso de litígio, o User Agreement (cláusula 15.2) remete para os tribunais da República da Croácia, com lei croata

No mesmo comunicado, a empresa afirma estar a avaliar opções de licenciamento para o futuro, sem divulgar o tipo de licença, a jurisdição ou o calendário. À data desta análise, não encontrámos a Hive5 nas listas de alertas da CMVM. Mas convém ser claro: não estar numa lista de alertas não significa estar autorizada. Significa apenas que o regulador ainda não se pronunciou.

E a separação do dinheiro dos investidores?

O comunicado de transparência afirma que os saldos das carteiras dos investidores são mantidos em contas dedicadas, separadas dos fundos operacionais da empresa. Mas o mesmo comunicado esclarece que essa separação é um controlo operacional, contabilístico e de gestão de risco e não um regime estatutário de salvaguarda como o exigido a instituições de pagamento licenciadas.

Em linguagem simples: uma instituição de pagamento licenciada é obrigada por lei a guardar o dinheiro dos clientes em contas juridicamente protegidas, que os credores da empresa não podem tocar em caso de insolvência e cuja separação é verificada por um regulador. Na Hive5, a separação é uma prática interna voluntária: não há lei que a imponha, não há supervisor que a verifique e não existe proteção legal automática desse dinheiro numa eventual insolvência.

Vantagens e desvantagens

Prós

  • Juros nominais elevados: entre 13% e 15% ao ano, consoante o originator
  • Sem comissões diretas para o investidor à data desta análise
  • Investimento mínimo muito baixo (10€)
  • Obrigação contratual de recompra pelo originator ao fim de 60 dias de atraso
  • Levantamentos reportados como rápidos (1 a 2 dias úteis) nas avaliações de utilizadores
  • Quatro anos de operação, com 218 milhões de euros financiados e 5,9 milhões de euros de juros pagos (dados da empresa)
  • Mercado secundário anunciado para setembro de 2026

Contras

  • Nenhuma regulação ou supervisão financeira, em nenhuma jurisdição
  • Sem fundo de compensação ou sistema de indemnização ao investidor
  • Plataforma e loan originators pertencem ao mesmo grupo: a recompra é prometida por empresas irmãs, o que concentra todo o risco de contraparte num único grupo
  • Operadora croata e empresa-mãe lituana com capitais próprios negativos nos registos públicos
  • Ligações familiares e de software a uma plataforma P2P croata declarada insolvente em 2023, documentadas por analistas independentes
  • Separação dos fundos dos investidores voluntária, sem verificação externa
  • Liquidez nula até ao vencimento, enquanto o mercado secundário não for lançado
  • O contrato permite introduzir comissões com 30 dias de pré-aviso
  • Obrigações fiscais manuais (anexo J) e foro judicial na Croácia em caso de litígio

Loan originators do próprio grupo

A página About us da Hive5 apresenta a estrutura acionista: a Hive finance, UAB é a empresa-mãe, detida maioritariamente por Andrius Rupšys (cofundador) e pelo Ruptela Group. Debaixo da empresa-mãe estão a operadora do marketplace (a d.o.o. croata) e as próprias empresas de crédito do grupo.

Organograma da Hive5 com a Hive Finance Group como empresa-mãe da plataforma e das empresas de crédito
Estrutura do grupo na página About us: a mesma empresa-mãe detém o marketplace e as empresas de crédito (hive5.com)

Este é um ponto essencial para perceber o produto: os loan originators listados na página de lending companies pertencem todos ao mesmo grupo da plataforma, com a etiqueta «Hive Finance Group» visível em cada um:

OriginatorPaísTipo de créditoJuro nominal anual
FinJetEspanhaCrédito ao consumo13 a 13,5%
CredilinkRoméniaFinanciamento à própria Credilink13,5 a 15%
FirmeoPolóniaCrédito a micro e PME13 a 14,5%
Página de lending companies da Hive5 com FinJet, Credilink e Firmeo, todos do Hive Finance Group
Os três originators atuais, todos com a etiqueta Hive Finance Group (hive5.com, 8 de agosto de 2026)

Num marketplace P2P clássico, a plataforma é um intermediário entre investidores e empresas de crédito independentes. Aqui, quem opera a plataforma, quem concede o crédito e quem promete a recompra pertencem ao mesmo grupo empresarial. Ou seja, diversificar entre os originators disponíveis na Hive5 não diversifica o risco de contraparte, porque toda a exposição converge no mesmo grupo.

Repara ainda na descrição da Credilink no próprio site: os investimentos na Hive5 estão ligados a financiamento concedido à própria Credilink («business financing provided to Credilink»). Ou seja, nesse caso, o dinheiro dos investidores financia diretamente a empresa irmã e não direitos de crédito sobre clientes finais.

A ligação à Credon e ao software CreditOnline

Uma investigação publicada pela re:think P2P, um blog alemão especializado em plataformas de empréstimos, documentou ligações que merecem ser conhecidas. Segundo essa investigação, baseada em registos societários e numa entrevista do então CEO da Hive5, o software que suporta a plataforma é o CreditOnline, desenvolvido por Juozas Rupšys, familiar de Andrius Rupšys, o acionista maioritário do grupo.

Juozas Rupšys era também o proprietário da Credon, uma plataforma P2P croata que suspendeu os levantamentos dos investidores no início de 2023 e foi declarada insolvente pelo tribunal comercial croata nesse mesmo ano, conforme a cronologia documentada com registos judiciais pelo mesmo blog.

Há desenvolvimentos mais recentes, reportados pelo analista Jean Galea: o CreditOnline foi adquirido pela Reiz Tech em novembro de 2025 e Juozas Rupšys saiu do negócio.

Para ser claro: a Hive5 não é a Credon e estas ligações não provam qualquer irregularidade na Hive5. São factos de contexto sobre a rede empresarial e tecnológica de onde a plataforma nasceu, que reproduzimos com atribuição às fontes que os documentaram e que cada investidor deve pesar por si.

Comissões: onde é que a Hive5 ganha dinheiro?

Para o investidor, a Hive5 anuncia custos diretos nulos. Segundo o centro de ajuda da plataforma (atualizado a 9 de agosto de 2026), não são cobradas comissões por investir, depositar, levantar, manutenção de conta ou apoio.

ItemCusto
Abertura de conta0€
Depósitos0€ (custos de transferência podem ser cobrados pelo teu banco)
Levantamentos0€
Comissão de investimento0€
Investimento mínimo10€

O modelo de receitas assenta em comissões de serviço cobradas dentro do grupo: como veremos nas contas públicas, a totalidade da receita da operadora croata provém de empresas do próprio grupo.

O que revelam as contas públicas de 2025

Como a Hive5 não é supervisionada, os únicos documentos financeiros verificáveis são as contas anuais depositadas nos registos oficiais dos países onde as empresas estão sediadas. Fomos consultá-los.

Hive5 marketplace d.o.o. (a empresa com quem assinas o contrato)

As contas de 2025 da entidade croata estão depositadas no registo público RGFI da FINA (Financijska agencija, a agência financeira estatal croata) e qualquer pessoa pode consultá-las gratuitamente após registo. Foi aquilo que fizemos:

Ficha da Hive5 marketplace d.o.o. no portal RGFI da FINA com os relatórios de 2025
Contas de 2025 da Hive5 marketplace d.o.o. no registo público croata (rgfi.fina.hr)
Rubrica20242025
Receita total458.811€704.661€
Resultado do exercício+6.144€-22.921€
Capitais próprios-37.360€-60.282€
Ativo total587.744€771.665€
Número médio de trabalhadoresn.d.0

Três detalhes destas contas merecem destaque:

  • Capitais próprios negativos. No final de 2025, a entidade que assina o User Agreement com 30.002 investidores tinha capitais próprios de -60.282€, com o capital social de 2.654€ totalmente consumido por prejuízos acumulados
  • Zero trabalhadores. As notas às demonstrações financeiras indicam um número médio de trabalhadores de 0 durante 2025. A operação real do negócio decorre noutras entidades do grupo
  • Receita 100% intra-grupo. A totalidade dos 704.661€ de receita de 2025 provém de vendas a empresas do próprio grupo, tal como a quase totalidade das contas a receber (453.326€)

As contas não evidenciam, dentro ou fora do balanço, os saldos das carteiras dos investidores: a rubrica de registos extrapatrimoniais está a zero. A empresa afirma no comunicado de transparência que esses fundos são mantidos em contas dedicadas junto da sua instituição financeira de serviço. Os documentos públicos disponíveis não permitem verificar em que entidade jurídica esses saldos estão registados.

Por fim, um pormenor documental: a decisão da assembleia geral sobre a aplicação do resultado, datada de 29 de abril de 2026 e depositada junto das contas, refere um prejuízo do exercício de 76.219€, enquanto as demonstrações financeiras entregues indicam 22.921€. Os documentos públicos apresentam, portanto, valores distintos entre si.

Hive finance, UAB (a empresa-mãe)

As contas anuais completas da empresa-mãe lituana estão disponíveis no registo comercial da Lituânia (Registrų centras) mediante pagamento. Os dados resumidos, de acesso gratuito no agregador Rekvizitai, mostram o seguinte:

Dados financeiros da Hive finance UAB no Rekvizitai com capitais próprios negativos em todos os anos
Dados financeiros da Hive finance, UAB (rekvizitai.vz.lt)
AnoReceitaResultado líquidoCapitais própriosPassivo
202225.050€-143.977€-142.566€743.057€
2023390.900€-174.237€-316.804€1.376.844€
20241.236.814€-75.852€-194.778€4.761.822€
20252.046.480€+41.270€-169.226€11.954.712€

Duas ressalvas: são contas individuais da UAB e não contas consolidadas de todo o grupo, e este resumo não corresponde ao relatório auditado que a empresa refere no site. Dito isto, o padrão é claro: a empresa-mãe apresentou capitais próprios negativos em todos os exercícios publicados (incluindo -169.226€ no final de 2025), registou o primeiro lucro em 2025 (41.270€, uma margem de 2% sobre a receita) e viu o passivo crescer de 743 mil euros em 2022 para quase 12 milhões de euros em 2025. Os dados resumidos não permitem perceber a composição desse passivo nem do salto dos ativos não correntes para 10,7 milhões de euros no mesmo ano.

Uma nota de equilíbrio: o Jean Galea refere que o grupo comunicou 2024 como o primeiro ano lucrativo em base consolidada, com 11,5 milhões de euros de receita e 1,9 milhões de euros de EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, isto é, o resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), com auditoria da UAB Veritas Auditas. Não conseguimos localizar esse relatório auditado em qualquer registo público nem no site da plataforma, pelo que registamos a informação tal como reportada.

A secção de transparência do site

A Hive5 tem uma página chamada «Transparency and oversight» onde afirma que o grupo publica demonstrações financeiras consolidadas auditadas por um auditor externo independente. À data desta análise (28 de agosto de 2026), os botões «Audited statements» e «View governance» dessa página não abriam qualquer documento e o botão «Explore lending companies» remetia para uma página inexistente (erro 404), embora exista uma página de lending companies acessível pelo menu principal.

Página Transparency and oversight da Hive5 com os botões de documentação assinalados
Página Transparency and oversight: os botões assinalados não abriam qualquer documento à data da análise (hive5.com)
Erro 404 na página de loan originators da Hive5
O botão «Explore lending companies» remetia para hive5.com/categories/loan-originators/, uma página inexistente (erro 404)

Os principais riscos

Uma nota prévia sobre um argumento frequente: «mas os levantamentos estão a funcionar». É verdade e não encontrámos relatos recentes de levantamentos bloqueados. Este dado, porém, diz pouco sobre o futuro: nos colapsos históricos do P2P europeu (Envestio, Kuetzal e Monethera, entre 2019 e 2020), os levantamentos funcionaram normalmente até ao dia em que foram suspensos, tal como na Credon, referida acima, que operou até suspender os levantamentos no início de 2023. Num modelo sem supervisão, o processamento pontual do último levantamento não é um indicador da solidez do próximo.

  • Risco de contraparte concentrado: plataforma, empresas de crédito e garantia de recompra dependem todos do mesmo grupo, cujas entidades principais apresentam capitais próprios negativos nos registos públicos
  • Risco de crédito: os empréstimos subjacentes são crédito ao consumo e a PME de rendimento elevado, sem rating, avaliado apenas pelo próprio grupo
  • Risco de plataforma: se a Hive5 encerrar ou entrar em insolvência, não existe regime de salvaguarda estatutário dos fundos nem sistema de indemnização
  • Risco de liquidez: sem mercado secundário até setembro de 2026, o dinheiro fica bloqueado até ao vencimento de cada empréstimo, e a cláusula 7.9 permite prorrogações unilaterais de prazo
  • Risco regulatório: nenhuma autoridade supervisiona a plataforma e não existe provedor a quem recorrer. Um eventual enquadramento futuro pode alterar as condições
  • Risco jurídico prático: em caso de litígio, terias de reclamar contra uma sociedade croata com capitais próprios de -60 mil euros, em tribunais croatas e ao abrigo de lei croata

O que dizem os investidores e os analistas

As avaliações na Trustpilot (nota 4,4 com mais de 479 avaliações, exibida na homepage da plataforma à data desta análise) relatam sobretudo levantamentos rápidos e uma plataforma simples de usar.

Entre os analistas, o quadro é diferente. O Jean Galea, um dos analistas de P2P mais antigos da Europa, recomendou a Hive5 em 2024, mas retirou a recomendação em 2026, levantou os próprios fundos e removeu os links de afiliado do site, citando os originators detidos pelo grupo e as ligações descritas acima. O autor da re:think P2P relata ter sido alvo de tentativas de ação legal após publicar a sua análise crítica. Reproduzimos estas posições como relatos dos próprios autores, que podes consultar na íntegra nos links.

Fiscalidade para residentes em Portugal

A Hive5 não faz retenção na fonte em Portugal. Os juros recebidos são rendimentos de capitais (categoria E) de fonte estrangeira e cabe-te a ti declará-los:

  • Anexo J da declaração Modelo 3, quadro 8A
  • Código de rendimento E21 (juros sem retenção em Portugal)
  • País da fonte: Croácia
  • Tributação autónoma de 28%, ou englobamento se for mais vantajoso no teu caso

Para te orientares no preenchimento, vê o nosso guia sobre como declarar investimentos no IRS.

Hive5, Mintos e uma corretora regulada: o que muda

ItemCorretora regulada na UEMintosHive5
SupervisãoReguladores europeus (CMVM, CySEC, KNF, etc.)Latvijas Banka, ao abrigo da DMIF IINenhuma
Sistema de indemnização ao investidorSim, até 20.000€Sim, até 20.000€ (com exceções)Não existe
Segregação de ativosObrigatória e auditadaObrigatória e auditada, com relatório entregue ao reguladorDeclarada pela empresa, sem verificação externa
Contas auditadasSimSim, pela KPMG BalticsContas estatutárias simplificadas, auditoria consolidada referida mas não localizável
Originators independentes da plataforman.a.Empresas de crédito externas ao grupoNão: todos do próprio grupo
LiquidezDiária, em bolsaMercado secundário próprio, sem garantia de procuraNula até ao vencimento (mercado secundário anunciado para setembro de 2026)
Quem suporta o risco de créditoDepende do ativoO investidorO investidor

Podes ler a nossa análise completa à Mintos e, se o teu objetivo for investir em instrumentos cotados, a comparação das melhores corretoras em Portugal.

Para quem é (e para quem não é)

A Hive5 só pode fazer sentido para investidores que já têm uma carteira consolidada (fundo de emergência, ETFs globais, eventualmente obrigações), que compreendem o que significa investir num produto sem qualquer supervisão, com risco de contraparte concentrado num único grupo, e que alocam a este tipo de plataformas apenas dinheiro cuja perda total não afetaria os seus objetivos.

Não é adequada para quem está a começar a investir, para objetivos de curto prazo, para o fundo de emergência, nem para quem não tolera a hipótese real de perder 100% do capital investido. Antes de decidir, compara com as melhores plataformas de P2P lending que analisámos, incluindo as que operam com licença e supervisão.

Veredicto

A Hive5 é uma empresa real, com registo público, quatro anos de operação e pagamentos efetuados. Mas é um produto de risco elevado, sem qualquer supervisão financeira e com uma característica estrutural que a distingue até das restantes plataformas não reguladas: quem opera a plataforma, quem concede o crédito e quem promete a recompra é o mesmo grupo.

Os três factos que resumem esta análise:

  1. Ninguém regula a Hive5 e não existe qualquer mecanismo de compensação, algo que a própria empresa assume por escrito.
  2. As duas entidades principais do grupo apresentam capitais próprios negativos nas contas públicas e as demonstrações consolidadas auditadas não estão acessíveis.
  3. Os juros de 13% a 15% são o preço de uma aposta na capacidade e na vontade de um único grupo empresarial não supervisionado continuar a pagar.

Se decidires testar, fá-lo com montantes que possas perder na totalidade. Atualizaremos este artigo se surgir qualquer novidade regulatória ou operacional relevante.

Perguntas frequentes

A Hive5 é regulada?

Não. O próprio site declara que a plataforma não está regulada ao abrigo de qualquer licença de serviços financeiros. A empresa considera que o seu modelo não exige autorização ECSP, MiFID, de instituição de pagamento ou de moeda eletrónica e afirma estar a avaliar opções de licenciamento, sem calendário divulgado.

O dinheiro na Hive5 está protegido por algum fundo de garantia?

Não. Os investimentos na Hive5 não são depósitos bancários e não estão cobertos por qualquer garantia de depósitos ou sistema de indemnização aos investidores, como o próprio site esclarece. A separação dos fundos dos investidores é uma prática interna da empresa, sem verificação por um supervisor.

O que é a garantia de buyback da Hive5?

É uma obrigação contratual (cláusula 7.7 do User Agreement) de o loan originator (a empresa que emprestou o dinheiro) recomprar os direitos de crédito ao investidor quando o mutuário atrasa os pagamentos por mais de 60 dias. O valor prático desta obrigação depende inteiramente da capacidade financeira do originator, que na Hive5 pertence ao mesmo grupo da plataforma.

Como declaro os juros da Hive5 no IRS?

Como rendimentos de capitais obtidos no estrangeiro: anexo J da declaração Modelo 3, quadro 8A, código E21, país da fonte Croácia, tributados a 28% (com opção de englobamento). A plataforma não faz retenção na fonte em Portugal.

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Investe com responsabilidade.

Autor
O Franklin é licenciado em Economia e mestre em Finanças. Concluiu o nível II do CFA e conta com cerca de três anos de experiência em gestão de patrimónios, como analista de carteiras e fundos de investimento na Golden Wealth Management. Criou o canal de YouTube "Edge Over Hedge" sobre literacia financeira. É o nosso Warren Buffett português – embora mais jovem.